Espiritualidade, Justiça, Oração

Jesus com fome e sede de Justiça

Por Henri Nouwen

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Jesus, o Bem-aventurado Deus de Deus, tem fome e sede de retidão. Ele aborrece a injustiça. Ele resiste a quem procura reunir riqueza e influenciar a opressão e a exploração. Todo o seu ser anseia por as pessoas se tratarem como irmãos e
irmãs, filhos e filhas do mesmo Deus.
Com fervor, ele proclama que o caminho para o Reino não é encontrado ao dizer muitas orações ou oferecer muitos sacrifícios, mas ao alimentar os famintos, vestir os nus e visitar os doentes e os prisioneiros (ver Mateus 25: 31-46). Ele anseia por um mundo justo. Ele quer que vivamos com a mesma fome e sede.

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Cidadania, Política

13 pontos para embasar qualquer análise de conjuntura

O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros. Maurício Abdalla

por Maurício Abdalla, do  Le Monde Diplomatique

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1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.

13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

Espiritualidade, Opinião, teologia

A empatia como compaixão

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[Por: José Neivaldo de Souza]

As coisas que nos custam mais são as que mais valorizamos. E nos custa muito mais dar do que receber. Michel de Montaigne

O tempo e as experiências, negativas e positivas, têm me ensinado que a “Empatia” é essencial para a paz interior. É um instinto de projeção, uma emoção. Faz-nos unir e fundir ao outro, ser humano, animal ou objeto. Em outras palavras, nos colocamos no lugar do outro e nos comunicamos com ele.

Porém, minha ideia, diferente de alguns autores que veem só lado amoroso desta comunicação, vai em direção ao seu duplo caminho, à sua contradição. Ela pode gerar compaixão e, ao mesmo tempo, indiferença, antipatia, inveja. Eis o verso e o reverso da mesma moeda: ou nos enxergamos com os olhos do outro e isso nos provoca a mudanças ou nos vemos refletidos nos olhos dele e isso para nós pouco importa; ou o rosto alheio nos ajuda a enxergar o que não percebemos, ou projetamos nele o que gostaríamos que ele fosse: nossa extensão. Assim, a Empatia pode nos levar à admiração, ao cuidado e à compaixão, como também pode nos ejetar no preconceito, na inveja e na indiferença em relação ao sofrimento alheio. No primeiro momento quero pensar a Empatia enquanto compaixão e o assunto sobre a indiferença fica para outra semana.

A Empatia como compaixão. Edith Stein, filósofa judia, convertida à fé cristã, produziu em textos o que viveu na Alemanha nazista. Simpática ao amor de Cristo, procurou vivenciar a compaixão, mas experimentou a antipatia, o ódio e o preconceito de seus detratores, sendo perseguida, torturada e morta numa câmara de gás em Auschwitz. Para ela, a Empatia é uma vivência fundamental na formação da pessoa humana, porém deve ser direcionada à compaixão.

Rubem Alves, em tom poético, dizia que a compaixão nos faz ter vontade de abraçar e sentir o que a outro sente. Enxergar no outro, o que eu gostaria que enxergassem em mim, não é fácil. É preciso exercitar, treinar muito. Adélia Prado diz que viver de mal com o mundo é muito fácil, faz parte de nossa natureza, difícil é amar, envolver a alma, cuidar da vida. Numa perspectiva psicanalítica, é a luta que o Eros, pulsão de vida, trava contra o Tânatos, pulsão de morte.

A palavra compaixão quer dizer: sentir “com” o outro o que ele “sente”. Viver no mesmo sentimento. Não é melhor cultivarmos ternura, solidariedade em relação ao ser humano, aos animais e à natureza? Para Dalai Lama, o estado de serenidade das pessoas depende deste sentimento. O líder budista observa que a falta de compaixão abre as portas para os crimes. Concordo!

Jesus Cristo ensinou e viveu esta serenidade em meio à perseguição. Levado ao tribunal e condenado como culpado, pelos criminosos, se colocou no lugar das pessoas aflitas e desamparadas e as via como “ovelhas sem pastor”, perdidas, sem encontrar um caminho. Se resumissem o ensinamento de Jesus talvez diriam: “saia do seu lugar e coloque-se no lugar dos que sofrem. Procure uma oportunidade para a salvação de ambos e da humanidade. Este é o caminho”.

Espiritualidade, Oração

Oração da fraqueza

Texto de Caio Marçal

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Sozinho no meu quarto, venho a ti, meu Senhor, celebrar minha fraqueza. Sim, eu a celebro! É nela que descubro que careço de Ti e que todo espírito de autossuficiência é tolice de quem é incapaz de amar e aprender com o outro.

Diante de Ti reconheço que não sou um super-herói, que não tenho todas as respostas, que não sei a solução de tudo, que sinto cansaço e preciso de ajuda. Farto de ver tanta injustiça, miséria e corrupção, clamo por Teu socorro!

Diante de Ti, vejo quem sou: pequeno, temeroso, vacilante e errante. Um pecador! Por vezes incrédulo, descrente, em estado de falência. Sozinho na tua presença, lanço fora minhas máscaras e retiro minhas maquiagens religiosas que estupidamente uso para disfarçar minhas imperfeições, carências e medos.

Agora está minha alma nua. Desnudo, é possível ver minha cobiça por poder, meus desejos camuflados e interesses mais mesquinhos. Também percebo a falsa necessidade de ser o centro das atenções, de manipular os outros, de tirar proveito das situações.

É impossível esconder-me de tua presença e tapeá-lo, Meu Senhor! Por mais que tente apresentar uma versão editada de mim, és o supremo Mestre. Tu sabes tudo, sabes quem sou.

Salva-me de mim mesmo! Perdoa-me, mas não tires de mim a minha humanidade. Torna-me mais sensível, mais gente! Deus, livrai-me do mal de projetos religiosos megalomaníacos de tornar pessoas em anjos… Agradeço-te porque na medida em que te revelas a mim em oração, mais tenho consciência da minha natureza.

Faz-me lembrar sempre que sou um ser humano enraizado no chão desse mundo. Desejo ser vaso de barro em tuas mãos e que em minha fraqueza, operes teu poder. Só assim posso promover teu Reino e Justiça, lutar pela vida e me derramar em favor dos pobres e esquecidos desse mundo mau.

Tu conheces minha estrutura e assim como um Pai se compadece de seus filhos, me amas com amor paciente. É o teu amor que me dá dignidade e que rompe os grilhões da baixa estima. Obrigado por não me lançares fora.

Ajuda-me a olhar para meu próximo com a mesma misericórdia que tens por mim. Ao experimentar a tua graça, que eu seja mais gracioso. Tu perdoaste os meus pecados, que eu viva como um perdoador.

Deus, que eu nunca esqueça que sou feito do pó dessa terra. Que eu proclame o tesouro da graça que depositaste em mim!

Peço-te em nome Daquele que se fez fraco abrindo mão de seu trono, porém venceu até a morte, para trazer abundância de vida. Amém!


Publicado originalmente no Boletim de Oração da Rede Fale.

Espiritualidade, Justiça, Missão Integral, teologia

Lyndon de Araújo: “Temos que abandonar a lógica da conquista como missão”

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Por Lyndon de Araújo Santos* 

Equidade – O que significa isto? Qual a relevância deste conceito para a Igreja de Cristo? Temos sido fieis na busca pela equidade enquanto cristãos? 

Equidade – Não falamos de algo que esteja distante de nós na América Latina e no Brasil. A partir da situação e do contexto em que nos encontramos, quero falar sobre equidade começando com 3 inflexões:

1 – O lugar de onde falamos: Sabemos que nos encontramos em espaços onde existem agudos déficits históricos e sociais em todas as esferas. Nos encontramos sob arraigadas estruturas promovedoras da desigualdade. Somos o resultado de uma sociedade formada pelas lógicas da invasão, exploração da sociedade e da escravidão. Somos síntese desses vetores e forças históricas, sociais e religiosas. O cristianismo foi um elemento que fez parte deste projeto. Organicamente inserido e cúmplice deste projeto, mas em vários momentos se contrapondo a ele.

Somos resultado de uma missão que obedeceu à lógica da conquista. E se pensamos em equidade como missão da igreja, temos que abandonar a lógica da conquista como missão. Se a equidade é o centro da missão, temos que renunciar à qualquer lógica da conquista.

2 – A igreja da qual falamos:

3 perspectivas:

  • igreja vista de baixo pra cima
  • igreja na sua horizontalidade
  • igreja na sua capilaridade social

Se eu pensar na igreja na lógica da conquista eu não posso chegar na equidade. Se falamos de equidade como missão da igreja, não entendemos ser possível nas suas estruturas que se comprometem com outras estruturas de poder. A igreja corpo como contraponto à igreja estrutura de poder e como lugar de comunidade integral.

3 – O tempo do qual falamos: a concepção de que a equidade não é possível para todos. Isso está no germe do pensamento moderno.

Por outro lado, se existe desigualdade, ela é responsabilidade dos que não conseguem ser iguais. Se a equidade só pode ser experimentada por um segmento social, deixa de ser igualdade, resultando portanto em uma falácia.

Nos encontramos diante de um paradigma que predominou durante o “infeliz século XX”: todas as promessas deste século desembocam frustradas no início do século XXI. Se o mundo está desigual, sobretudo na América Latina, podemos pensar na nossa condição. Liberalismo.

Os sentidos e as dimensões da equidade:

Político, social e teológico. A igualdade e a equidade são princípios fundamentais que norteiam as lutas por uma sociedade melhor. Os sentidos da palavra equidade que se relacionam com igualdade são vários e as dimensões dessa palavra são pelo menos três à igualdade, reparação, simetria, imparcialidade, justiça, justa distribuição, equilíbrio, imparcialidade e compensação.

Ela agrega as dimensões:

Jurídica – lei e sua aplicação.

Econômica – compreende a relação entre a produção de víveres, de bens e riquezas extraídas da natureza pela instrumentalização da tecnologia e a sua distribuição suficiente ou justa para a satisfação de necessidades materiais. A maneira como essa distribuição é concentrada pode gerar equidade ou iniquidade. Essa dimensão econômica exige a administração da casa. Temos que distribuir conforme as necessidades numa relação de equidade que pressupõe distribuição, eficiência e satisfação dessas necessidades.

Relacional – essas relações interpessoais são mediadas por conflitos, dramas e conciliações em que há equidade ou não.

Essas dimensões não se separam, estão fundidas no mundo. A questão ambiental tem dimensões jurídicas, econômicas e relacionais. Esgotamento dos recursos naturais explorados segundo a lógica que reduz as dimensões humanas a uma mera mercadoria: mercantilização da vida. O que vemos nos últimos tempos é o esvaziamento dessa dignidade em que trabalhador, o seu trabalho e o produto do seu trabalho perdem a condição de dignidade.

Como igreja, qual o nosso lugar diante dessa coisificação do humano e da natureza? Ética da solidariedade: está presente na Lei Mosaica, nos profetas, na literatura de sabedoria, na pregação e exemplo do Senhor Jesus e na pregação apostólica. Aquele que ama o seu próximo cumpre toda a lei, logo pratica a equidade. Se buscamos a justiça do Reino, a equidade está nela.

Na história da igreja isto está na pregação patrística. Os movimentos monásticos, com as abençoadas heresias e ordens mendicantes medievais que foram movimentos de protestos social, e também no pensamento reformado.

Cristianismo primitivo – o etos do amor ao próximo e a renúncia ao status à isso gerou uma experiência de equidade incomum no mundo antigo. Essa experiência das igrejas macedônicas, da Acaia e de Corinto foi resultado da Graça de Deus.

A ética da solidariedade só é possível em uma relação de horizontalidade. A coragem do amor radical ao próximo e de renúncia ao status nós precisamos reaver e retomar.

Alguns norteamentos para a missão:

A equidade como princípio, valor e prática exemplificada na encarnação de Jesus e da experiência da abundante graça comunitária. A ação generosa e voluntária resulta da graça, a propriedade privada se torna relativa ante a proporcionalidade da contribuição de acordo com as posses, “nem alívio para uns, nem sobrecarga para outros”, “para que haja igualdade”.

Citando John Stott:

  • Deus tem provido o suficiente para satisfazer as necessidades de todos;
  • Toda marca da disparidade entre abundância e carência e pobreza lhe é inaceitável;
  • Quando surge uma situação de séria disparidade, deve ser corrigida mediante um ajuste com o fim de lograr a igualdade ou a justiça;
  • A motivação de buscar a igualdade é o amor.

Uma agenda da missão:

Construir as possibilidades de uma ética da solidariedade.

Dizer que a concentração de poder religioso equivale à concentração de renda, à iniquidade.

Denunciar a falácia da equidade desde a lógica do capital.

Anunciar a equidade como vontade de Deus.

Praticar a equidade na dinâmica social das igrejas e comunidades.

Agregar-se a movimentos sociais que se propõem à construção da equidade em todas as dimensões.

 


* Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Equidade foi um dos três eixos temáticos que nortearam as palestras e exposições bíblicas do Congresso Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, realizado entre os dias 26 e 29 de junho de 2017 em Vitória (ES). 

Texto publicado originalmente em http://tearfundbrasil.org/lyndon-de-araujo-temos-que-abandonar-logica-da-conquista-como-missao/