Cidadania, Opinião, Política

Esquerda que planta lacração colhe Bolsonaro

Texto de Lucas Pier

lacração

Pode ser que o Bolsonaro vença as eleições presidenciais em 2018. Uma decisão da justiça pode anular a candidatura de Lula. Quem entende de política sabe o que Bolsonaro representa para os trabalhadores, para os indígenas, os quilombolas, os LGBT, para os marginalizados e para a cidadania; sabe do compromisso que ele tem com os oligopólios, com o “patrimonialismo”, com o entreguismo. Sabe do retrocesso que será. Mas a maior parte da população não entende de política e não sabe disso.

A maior parte das pessoas que votará no Bolsonaro não é a extrema-direita que se identifica com seus discursos de ódio, ainda que esta seja sua divulgadora mais entusiasta. A maioria das pessoas que votarão no Bolsonaro são trabalhadores comuns, como os nossos pais, nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho que, com justa indignação com a situação no país, se deixam guiar pelo discurso moralista e populista daqueles que se apresentam como salvadores da pátria.

Este é um momento de suma importância para se tentar esclarecer a população sobre o que Bolsonaro representa. A árdua tarefa cultural de esclarecimento, que passa pelo convencimento, para romper com a ideologia dominante, é uma tarefa que exige tempo e paciência. Exige também compreensão das formas pelas quais o status quo reproduz sua ideologia para que não culpemos as pessoas, como se suas convicções fossem o produto de uma consciência puramente individual (nada seria mais idealista). E de que não podemos abrir mão desse trabalho porque são eles que detém a hegemonia cultural, não nós.

Para a pessoa de esquerda que fez questão de xingar e hostilizar quem reproduz tais discursos que tem como base uma visão moralista e preconceituosa, fechou os canais de comunicação com essas pessoas, e o preço a se pagar pode ser a eleição de um Bolsonaro. “Quem apoia este homem, por favor me exclua”. Não é assim? “Racismo, machismo e homofobia não são opinião”. Pois bem, esqueceram-se de que eles eram a maioria, e que esta maioria apoia a minoria que detém os meios de produção, de comunicação e de legislação.

Não estou dizendo que temos que tolerar o fascismo, seja lá qual forma ele assuma. Estou dizendo que temos que tolerar, sim, a pessoas que, por ignorância, reproduzem discursos eventualmente fascistas. E isso não significa concordar ou aprovar. As pessoas têm sim o direito de dizer o que elas pensam. Mandá-las à merda não resolve nada, ao contrário, fortalece sua convicção. Quem age assim se guia pela vaidade, pelo ego. Querer contribuir para tornar nosso ambiente melhor envolve justamente uma abdicação do orgulho para fazer aquilo que é necessário.

Mas é possível mudar a opinião das pessoas com diálogo? Sim, é possível. Já contribui para a mudança da opinião de várias pessoas que (ainda) pensam muito diferente de mim, e só pude fazê-lo porque tenho a paciência de repetir e explicar o que sei quantas vezes for necessário. Se você acredita que a sua manifestação individual ou coletiva é capaz de influenciar mudança no mundo (e caso contrário você nem se manifestaria), então você deve ser capaz de entender que uma manifestação “errada” pode influenciá-lo negativamente. Aquele “fascista” que você xingou pode ser o pobre que você pretende defender; ou pode ser só um sujeito de classe-média que, este sim vai influenciar o pobre que você pretende defender.

Meu apelo é para que vençam o orgulho. Sejam tolerantes e dialoguem. Se não for possível dialogar, ignore. É melhor não fazer nada do que dar uma impressão negativa para quem assiste. Façam isso não por um princípio moral, mas por uma questão estratégica, ou as consequências podem ser pesadas.


Publicado originalmente no JORNAL A PÁTRIA

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