Opinião, Política

O eleitorado de Bolsonaro e seu potencial

*Rudá Ricci

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Acabo de ser entrevistado pelo Le Monde que me propôs esta pauta que dá o título à postagem. Sobre o eleitorado de Bolsonaro, considero que ele se divide em segmentos com motivações específicas. Sugiro ao menos três segmentos:

a) Juventude. O Datafolha revelou, em novembro do ano passado, que 60% dos eleitores de Bolsonaro têm entre 16 e 34 anos. Desses, 30% têm menos de 24 anos. Avalio que este segmento de seu eleitorado pode ser subdividido entre os que se posicionavam como anti-status quo e os mais identificados com as organizações juvenis de extrema-direita (caso do MBL). O marco para o recrutamento desta juventude foram os anos de 2015 e 2016. Foram as manifestações espetaculares do MBL e Vem pra Rua, entre outras organizações juvenis, principalmente em 2015. Em 2016, algumas pesquisas já revelaram que o público dessas mobilizações era mais maduro (na faixa dos 50 anos), com renda e instrução muito superior. Jovens que tinham 20 ou 25 anos em 2015 tinham vivido toda sua adolescência e entrada na juventude sob gestões lulistas. Nunca haviam visto outro partido governando o país, o que significa que a Ordem era o PT. E um PT permissivo, que se aliava com gente da velha política. O PT no governo não representava o novo para os jovens. Não representava a juventude. Contudo, o que era mera contestação ao poder estabelecido, com o impeachment de Dilma Roussef, passou a exigir algo mais que rebeldia. Penso que 2016 foi o marco da politização de parte desta juventude anti-lulista que da contestação passou a adotar alguns discursos de extrema-direita, como a bizarrice de citar que o nazismo era de esquerda porque continha a palavra socialista no seu nome.
Há outro fato que chama minha atenção em relação aos líderes do MBL. O discurso violento e desrespeitoso parece não se adequar às figuras de nerds dos seus líderes. São todos franzinos, sem sal, sem charme. Mas todos falam grosso. A agressividade excessiva e a ameaça permanente lhes confere um status que seu físico e existência não endossam. As demonstrações de força devem seduzir parte da juventude que quer um lugar ao sol e se sente sem forças, intimidada, envergonhada, meio nerd, sem charme. A ameaça da militarização do país ou a defesa do uso de armas para defesa pessoal, na minha opinião, tem este condão de criar um mundo da fantasia em que os franzinos esquecidos e humilhados pela vida ganham vida ao conquistar o martelo de Thor.

b) Extrema-direita. Esta é composta por gente mais velha e que abraça com mais nitidez todas teses da extrema-direita: violência, ameaça ou ações diretas de ataque aos segmentos que identificam como inimigos, ações em confronto com as regras legais, sentimento de impunidade, intimidação diária, abuso, imposição de sua vontade. Não estão, ainda, organizados nacionalmente ou articulados entre si, mas já aparecem nitidamente na forma de milícias paramilitares (que assassinaram uma vereadora e líderes sociais em diversas regiões do país) e entre ruralistas (que atacaram a caravana de Lula no sul do país com pedras, pedações de pau e armas de fogo). Sentem-se impunes. Vivem seus dias de glória porque suas ações recentes se somam ao discurso da ameaça de intervenção militar que acabaram por desaguar no julgamento de ontem. Sentem que foram eles os vitoriosos de ontem. Ninguém fez tanto barulho pela prisão de Lula como eles.

c) Debochados e niilistas. O Brasil sempre foi fonte de deboche político. Do rinoceronte Cacareco, passando por Tiririca ou Enéas, há uma parcela do eleitorado brasileiro que se identifica com a anti-política. Jânio Quadros, Garotinho e Romário flertaram ou flertam com este estilo “outsider”. É como se dissessem, através desses candidatos, que a política institucional tem que ser testada na sua hipocrisia. Uma maneira de colocar um vírus no próprio sistema político. Um descompromisso público, afinal.

Bolsonaro fez carreira marginal até que a onda anti-lulista começou a crescer. Fez a linha falastrona, se jogou na rede de segurança atacando com exageros e pouca consistência teórica ou técnica, sem compromisso algum com o razoável. Não sei se teria muito destaque se o PSDB não tivesse ingressado no governo Temer. Várias pesquisas – como a do IBOPE, encomendada pelo Estadão – revelaram que foi o partido que mais perdeu popularidade nacional com o apoio ao governo atual. Nem mesmo o PMDB caiu tanto na intenção de voto como ocorreu com os tucanos. Por este motivo, o partido que mais tinha se consolidado como anti-lulismo – o PSDB – deixou uma avenida aberta para Bolsonaro ocupar.

Eu sempre projetei a força eleitoral de Bolsonaro como sendo o anti-Lula. Sem Lula, cheguei a escrever, possivelmente perderia sua função. Ocorre que a sequência de atos de violência política que a extrema-direita liderou, seguida por discursos ameaçadores de alguns militares e que acabaram desaguando no julgamento de ontem criaram um ambiente propício para a extrema-direita se impor de vez no país.

Acredito que dependerá mais da estruturação dessas forças ainda esparsas país afora e de sua intenção de negociar com Bolsonaro. Não dependerá tanto da intenção de Bolsonaro.

O fato é que minha hipótese de queda de índices de intenção de votos de Bolsonaro com a ausência de Lula no pleito já não parece tão sólida. Há urubus no ar. O céu de brigadeiro azedou.


é um cientista político formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) na década de 80. Mestre em Representação Sindical no Brasil pela Unicamp e Doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. Diretor-geral do Instituto Cultiva em Minas Gerais.

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