Caio Marçal, Cidadania, Direitos Humanos, Espiritualidade, Política, teologia

Entrevista com Caio Marçal no Teologia de Boteco

Entrevista com Caio Marçal no Teologia de Boteco sobre a Rede FALE, um grupo de cristãos que se organiza pra falar pelos oprimidos. Uma boa conversa sobre posicionamento politico dos cristãos e mais um monte de coisas boas e varias risadas. Assista!

 

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Direitos Humanos, igreja, Política, teologia

Teólogos se manifestam sobre a situação política do Brasil

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Teólogos e pesquisadores da área da Religião presentes no 31º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, realizado entre os 10 a 13 de julho de 2018 em Belo Horizonte, manifestaram-se através sobre o presente realidade brasileira através de uma carta pública.

Abaixo segue a declaração.

CARTA-MANIFESTO

Belo Horizonte, 13 de julho de 2018.

“Será que Deus se enganou ao criar-nos assim, negros,
como somos?”
Paulina Chiziane

Cidadãs e cidadãos brasileiros:

Sob o impacto das conferências que ouvimos no 31º Congresso Internacional da SOTER, realizado em Belo Horizonte, de 10 a 13 de julho de 2018, a partir do tema “Religião, Ética e Política”, do testemunho profético da escritora moçambicana Paulina Chiziane, e dos debates entre os mais de 550 participantes do evento, tomamos a liberdade de nos manifestar à sociedade brasileira porque o momento vivido no país é da maior gravidade. Como intelectuais e estudiosos das mais diversas expressões religiosas e dos dramas vividos por nosso povo, não podemos nos calar, muito menos como pessoas de fé que pautam suas vidas pela coerência na luta pela justiça, pela democracia e pela dignidade humana.
Como observadores atentos da conjuntura atual brasileira, denunciamos o processo iníquo de desconstrução da frágil democracia que vimos construindo duramente depois de mais de 20 anos de ditadura civil-militar. Percebemos que há um claro intento, em curso, de quebra do Estado Democrático de Direito, com a não garantia plena dos direitos e garantias fundamentais contidas na Constituição Federal de 1988, a relativização desses direitos em nome da racionalidade do mercado, que não está mais sob o controle do Estado Democrático de Direito. Constatamos a precarização das conquistas sociais e dos direitos da classe trabalhadora; o recrudescimento de distintas formas de violência que atingem particularmente os mais pobres e vulneráveis, os povos indígenas, os quilombolas e as populações tradicionais, além da violência crescente contra movimentos sociais e suas lideranças. Assistimos, indignados, ao aumento do feminicídio e da impunidade, ao desrespeito aos direitos humanos, à onda de intolerância religiosa e à disseminação do ódio social nas mídias abertas e redes sociais, situação que vem chegando às raias do crime contra a pessoa em número inédito neste país. Parece-nos, igualmente, um equívoco a militarização do combate ao crime organizado e a imposição da ordem social pela força em detrimento da liberdade de ir e vir e de um plano de segurança debatido amplamente pela sociedade.
Diante deste quadro dramático, como Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, reivindicamos publicamente as seguintes medidas que podem ajudar o país a retomar o caminho da democracia e da paz social:

1. Resgate da Democracia, do Estado Democrático de Direito e da Soberania Nacional;
2. Recuperação dos serviços públicos de saúde para toda a população, com a sustentação prioritária do SUS;

3. Revogação das leis antipopulares como a Reforma Trabalhista e a Lei do engessamento do Orçamento Nacional por 20 anos;
4. Recuperação da Educação pública, gratuita e universal em todos os níveis e a garantia da continuidade da pesquisa nacional autônoma;
5. Demarcação dos territórios indígenas, das terras quilombolas, das terras dos povos originários, sobretudo na Amazônia;
6. Reforma Agrária com apoio creditício e técnico à agricultura familiar, à agroecologia e à agricultura orgânica; retomada do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos pelo governo federal e instituições públicas de ensino; a redução do uso de agrotóxicos;
7. Combate à impunidade e ao feminicídio, com garantia da vida de mulheres ameaçadas;
8. Garantia de liberdade de culto para todas as expressões religiosas sem interferência
do Estado;
9. Garantia plena do direito de opinião, de exercício do pensamento crítico e do debate público nas escolas em todos os níveis;
10. Resgate da ética na política com participação popular, garantia plena do voto popular
e do direito às candidaturas de todas as pessoas;
11. Resgate do direito pleno à presunção de inocência, cf. o artigo 5º da CF 1988;
12. Resgate da dignidade de isenção do Poder Judiciário;
13. Democratização das mídias abertas e controle dos monopólios da informação;
14. Defesa irrestrita da vida das pessoas, do meio ambiente e resgate do instituto da
precaução, sobretudo na agricultura de exportação e da monocultura;
15. Promoção da dignidade de todas as pessoas e dos direitos humanos conforme os
Planos Nacionais de Direitos Humanos.

 

No momento em que o pais vive talvez sua mais grave crise social, política, econômica, ambiental e moral, a SOTER, seus membros e participantes deste Congresso Internacional conclamam publicamente o povo, as instituições científicas, as comunidades de fé, os movimentos sociais, as igrejas, os sindicatos, as entidades civis, as associações e as cooperativas a levantarem sua voz em defesa dos direitos e garantias fundamentais, e a buscar com organização e criatividade caminhos para o resgate da Democracia participativa e transformadora, única forma de evitar o caos social, o abuso do poder estabelecido e a violência sem tréguas.
Inspirados pelo Espírito da Vida que sopra dos quatro ventos da terra, afirmamos nossa esperança de novos céus e nova terra, com cidadania, justiça e paz.

A Diretoria
Cesar Kuzma – Presidente da SOTER
Maria Clara L. Bingemer
Paulo Fernando C. de Andrade
Solange Maria do Carmo
Alex Villas Boas Mariano
Participantes do 31º Congresso Internacional da SOTER 2018

Espiritualidade, Oração

Pai Nosso

Rubem Alves

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Photo by Pixabay on Pexels.com

 

Pai… Mãe… de olhos mansos
sabemos que estás invisível em todas as coisas.
Que o teu nome nos seja doce, a alegria de nosso mundo.
Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:
Os jardins, as fontes, as crianças,
o pão e o vinho,
os gestos ternos, as mãos desarmadas,
Os corpos abraçados…
Sei que desejas dar-nos nosso desejo mais fundo,
desejo cujo nome esquecemos… mas tu não esqueces nunca.
Realiza pois o teu desejo para que possamos sorrir.
Que o teu desejo se realize em nosso mundo
da mesma forma que ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje:
o pão, a água, o sono…
Que sejamos livres da ansiedade.
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros
como os teus são para conosco.
Porque, se formos ferozes,
não poderemos acolher a tua bondade.
Ajuda-nos para que não sejamos enganados pelos maus desejos
E livra-nos
daqueles que carregam a morte nos próprios olhos.
Amém

Rubem Alves -Transparências da Eternidade- 4ª edição

Cidadania, Política

Moro e Neymar: a vaidade é o pecado favorito do Diabo

 Wilson Roberto Vieira Ferreira

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Em 72 horas os maiores investimentos semiótico-ideológicos da grande mídia foram desconstruídos: Sérgio Moro e Neymar Jr. O primeiro caiu na armadilha do habeas corpus que supostamente iria soltar Lula. E o segundo, na arapuca tautista midiática que fez o jogador acreditar que era intocável, até a viralização do mote “cai-cai” em vídeos pelo mundo eliminá-lo junto com a Seleção. Duas bombas semióticas: uma intencional (o objetivo não era soltar Lula, mas criar um fato político para o mundo) e outra involuntária (efeito da blindagem tautista da mídia e mercado publicitário).

Al Pacino fazendo o papel do próprio demônio em “O Advogado do Diabo” tinha razão: “a vaidade é meu pecado favorito…”. A vaidade dos juízes e do jogador deixou-os cegos. A mídia sentiu o golpe: enquanto o Fantástico teve que se desfazer de Neymar (“hoje não se tolera mais ludibriar o juiz”, fuzilou Tadeu Schmidt), Globo News começou a falar em “instabilidade jurídica” e “politização do Judiciário”. Bombas semióticas perfeitas que produzem efeitos fatais: detonação, letalidade, impasse midiático e dissonância cognitiva.

“Vaidade… definitivamente é o meu pecado favorito!”, diz Milton, o Diabo disfarçado de advogado em O Advogado do Diabo, 1999, ao ver Keanu Reeves cair mais uma vez na mesma armadilha criada por ele no início do filme.

Essa foi a casca de banana jogada pelos advogados e deputados Wadih Damous e Paulo Pimenta com o pedido de habeas corpus no TRF-4. Em férias, o juiz de primeira instância Sérgio Moro caiu na verdadeira arapuca da vaidade. Criou um imbróglio e expôs a autofagia do Judiciário.

Como um verdadeiro homem-bomba, o desembargador plantonista Rogério Favreto expediu o habeas corpus no domingo e determinou a soltura imediata de Lula dos cárceres da PF de Curitiba. Moro acusou o golpe e, desesperado e com orgulho ferido, ligou para o diretor-geral da Polícia Federal para os carcereiros não acatarem a ordem. E em seguida, também para o relator da Lava Jato no TRF-4, Gebran Neto.

Criado o impasse, teve que entrar em cena o presidente do TRF-4, Eduardo Thompson Flores (o campeão da Globo com uma entrevista de destaque aoFantástico, antes do julgamento de Lula em segunda instância no Tribunal Federal de Porto Alegre) para por fim à “batalha de decisões”, o que só explicitou todo o freak out de juízes feridos no orgulho.

De repente, todos voltaram de férias. Todos querendo ser o juiz de plantão, reivindicando ser o juiz natural do processo – fogueira das vaidades: como assim, um juiz petista vai libertar Lula depois que todos correram e leram milhares de páginas de processos em tempo recorde para prender Lula antes das eleições?

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Tudo começou no triplex do Guarujá

A estratégia do Empate

Quebra de hierarquia e um cabo de guerra que poderiam ser sido facilmente evitados libertando Lula para, em 24 horas, o STF indeferir a decisão do desembargador plantonista. Mas a armadilha da vaidade foi bem armada: expos os intestinos do Judiciário, o voluntarismo político de Moro, além de criar um explosivo fato político num momento em que Lula estava “esquecido” pela grande mídia.

Bomba semiótica perfeita, com timing mas, principalmente, pela estratégia ativista do “empate” – tática intermediária entre o pacifismo e o belicismo para criar um impasse institucional. Que lembrou um outro gol anterior da esquerda: a invasão do triplex do Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo em abril.

Lá a ocupação criou um potencial impasse institucional (se o apartamento é de Lula, então estavam autorizados pelo dono para invadirem; se não, quem vai pedir a retomada de posse? – clique aqui). Mas aqui, na expedição dohabeas corpus, o impasse se deteriorou em um cabo de guerra, quebra de hierarquia, desobediência e posicionamento político explícito em decisões supostamente processuais.

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Moro e a isca

Era óbvio que e a libertação de Lula cairia rapidamente no STJ. Mas era o que menos importava. O ardil estava em outra cena, assim como em abril no Guarujá: lá, foi o vídeo gravado no interior do tríplex desmentindo os supostos 1,2 milhões investidos pela OAS; em Porto Alegre, a isca da vaidade que expôs a politização do Judiciário. Tão politizado quanto a bomba semiótica de efeito retardado jogada pelo PT.

Como vimos na postagem anterior sobre a invasão do tríplex, a perfeita bomba semiótica produz como efeito: Detonação, Letalidade, Dilema Midiático e Dissonância Cognitiva.

(a) O timing da Detonação

Uma bomba de efeito retardado aproveitando o timing da eliminação do Brasil na Copa. A derrota brasileira foi à tarde. À noite, os advogados deram entrada com o habeas corpus no TRF-4.

Aliás, o mesmo timing da grande mídia: seguindo a denúncia da Globo no portal G1 e no Jornal nacional na noite de sexta, a mídia repercutiu a denúncia contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de oferecer facilidades de serviços públicos para pastores, igrejas evangélicas e fiéis. Além da Globo voltar ao bate-bumbo da Lava Jato no Estado do Rio.

Eliminada a Seleção, a opinião pública sai do transe. Para a bomba semiótica da vaidade explodir em pleno domingo.

Será que a esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico da grande mídia?

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Valdo e Camarotti: pegos de surpresa nas suas residências gaguejando

(b) Letalidade: Globo sentiu o golpe

Não tem preço ver apresentadores e comentaristas de política da Globo News como Gerson Camarotti e Valdo Cruz pegos de surpresa no domingo, falando de suas residências via Internet, todos gaguejando e tentando costurar alguma narrativa para dar sentido a tudo.

Primeiro, tentando desautorizar o desembargador que determinou a soltura de Lula: filiado ao PT por 19 anos etc. Argumento fraco, já que ministros como Joaquim Barbosa foram indicados por Lula e nem por isso deixaram de colaborar com o golpe de 2016. Sem falar de juízes e ministros do STF com íntimas relação com políticos tucanos flagrados em festas e eventos.

No mínimo, a esquerda estaria lutando com as mesmas armas tão familiares a seus adversários. 

Segundo, com o argumento de que o PT faz o jogo de “politizar decisões judiciais”.

Para no dia seguinte mostrarem que sentiram o golpe: Natuza Nery teve que admitir a “instabilidade jurídica”, “quebra de hierarquia”, “cabo de guerra” e “politização do Judiciário” que deve ser resolvida pelo STF com uma “mudança de legislação”… Bola passada para a presidenta do STF Carmen Lúcia.

Mais tarde na TV aberta,  no Jornal Nacional, o episódio nem mereceu figurar na escalada. Acabou espremido entre as notícias da Copa e da família real inglesa… A Globo parecia tentar superar o dilema midiático do domingo, simplesmente não falando mais do assunto.

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Como mostrar aquilo que se deseja esconder…

(c) Dilema midiático: como noticiar aquilo que prova o que se pretende esconder?…

Típico dilema, efeito do marketing de guerrilha que está na essência da bomba semiótica: como sócia do consórcio jurídico-midiático que atualmente pauta a vida política nacional, como deixar de noticiar um evento cuja própria descrição desmente a narrativa dos comentaristas da Globo?

Todas últimas munições foram gastas para tentar provar que não havia “fato novo” (a prisão de Lula que supostamente atrapalharia a isonomia entre os candidatos à eleição presidencial), como justificou Rogério Favreto na expedição dohabeas corpus. Porém, a própria mobilização atabalhoada de juízes em tempo recorde para manter Lula preso confirmaram que há, sim, um fato novo: a proximidade da campanha à presidência com um dos candidatos preso.

Sentindo esse dilema, o Jornal Nacional decidiu nem colocar o assunto na escalada da edição de segunda-feira.  

(d) Dissonância cognitiva: desconstrução da narrativa

Até esse momento, a narrativa sustentada pela grande mídia era que todo o processo judicial e a sentença que levou o ex-presidente à cadeia eram “tecnicamente irrepreensíveis”, “imparciais”, resultado do “exame irretocável das provas dos autos”.

A ação desesperada, transformando magistrados em lutadores num ringue no qual tentavam, a todo custo, manter as aparências através de todas as “data vênias” que o “juridiquês” pode proporcionar, foi a dissonância suficiente para contradizer a narrativa dominante da imparcialidade – que nem os colunistas políticos conseguiram mais sustentar: agora, clamam para Carmen Lúcia fazer alguma coisa para manter a “estabilidade jurídica”.

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Tadeu Schmidt: depois de defender em jogos anteriores, finalmente teve que despachar o Neymar

Desconstruindo Neymar

A grande mídia (liderada pela Globo) e o mercado publicitário criaram na mente de Neymar Jr. a ilusória blindagem tautista. E mais uma vez, Al Pacino tem razão: a vaidade é o pecado favorito do Diabo.

O jogador sentiu-se no centro de todos os olhares com a narrativa midiática do “craque caçado em campo”. Com toda a sua autoindulgência, esqueceu de jogar bola graças à performance “overacting” ridicularizada no mundo inteiro. Tal como um ator canastrão. Quando caiu em si (desculpem o trocadilho…), já era tarde.

Até a Globo teve que despachá-lo com uma crônica, cheia de dedos e pisando em ovos, feita pelo apresentador Tadeu Schmidt no Fantástico desse último domingo.

Mais uma vez, a Globo sentiu o golpe. E ironicamente, enquadrando Neymar Jr. no indefectível discurso anticorrupção que martela diariamente: “Houve um tempo que era bonito ludibriar o juiz, não incomodava ninguém. Hoje, não se tolera mais… que as imagens de Neymar no chão não escondam todas as jogadas e o brilho que produziu…”, alertou Schmidt.

Ou seja, para a Globo, Neymar foi corrupto, tentando enganar juízes na Copa.

Enquanto isso, Moro e o imbróglio dos desembargadores some da escalada do telejornal da rede.

A esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico dos seus adversários.


Texto publicado originalmente em https://cinegnose.blogspot.com/2018/07/moro-e-neymar-vaidade-e-o-pecado.html#more