Direitos Humanos, Justiça, teologia

O racismo e a supremacia branca são “um problema cristão”

Heidi Schlumpf

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Em 1934, um grupo de cristãos na Alemanha nazista assinou seus nomes com a “Declaração de Barmen”, uma declaração que se opõe à ideologia nazista como antitética ao Evangelho. Oitenta anos depois, os cristãos nos Estados Unidos sentem a necessidade de fazer o mesmo.

Mais de 400 eticistas cristãos e outros teólogos assinaram ” Uma Declaração de Ética Cristã Sem Fronteiras sobre a Supremacia Branca e o Racismo “. Organizada por quatro professores de ética e datada de 14 de agosto, a declaração rejeita “a ideologia racista, antissemita, antimuçulmana e neonazista como um pecado contra Deus que divide a família humana criada à imagem de Deus”.

Os organizadores estavam particularmente preocupados – assim como os da Alemanha nazista – por aqueles envolvidos na supremacia branca e outros movimentos que também afirmam ser cristãos. “Essa é uma versão distorcida do cristianismo”, disse Tobias Winright, professor associado de ética em saúde na Universidade de St. Louis e fundador do grupo “Ethicists without Borders”, do Facebook, que organizou o comunicado.

Esta afirmação enfoca os eticistas cristãos “porque este é um problema cristão”, disse Winright.

“A supremacia branca e o racismo negam a dignidade de cada ser humano revelada pela Encarnação. O mal da supremacia branca e do racismo deve ser colocado frente a frente diante da figura de Jesus Cristo, que não pode ser confinado a nenhuma cultura ou nacionalidade, “a declaração diz.

A declaração conecta o anti-semitismo e o racismo ao nacionalismo, incluindo a doutrina da “Primeira América”, que chama de “erro pernicioso e idólatra” porque “insensatamente pede aos norte-americanos que substituam a adoração de Deus pela adoração da nação”.

“Queríamos fazer uma declaração realmente forte de que essas visões são heréticas para o evangelho cristão”, disse Anna Floerke Scheid, professora associada de teologia da Duquesne University, em Pittsburgh, uma das organizadoras.

PROPAGANDA

Floerke Scheid e outros ficaram desapontados com a resposta morna do clero e de outros líderes religiosos na sequência de eventos racistas, mesmo antes de Charlottesville. “Há uma separação entre o que está acontecendo nas ruas e o que está acontecendo nas igrejas”, disse ela.

Mesmo a reação dos líderes católicos à violência em Charlottesville não combinou com a força do ensino anterior da Igreja contra o racismo eo anti-semitismo, disse Matthew Tapie, diretor do Centro de Estudos Judaico-Católicos da Universidade St. Leo, na Flórida, e outro organizador a declaração. “Parece-me que estamos em uma situação de emergência e precisamos de uma denúncia mais forte”, disse ele.

A declaração sugere respostas ativas contra o racismo e a supremacia branca de todos os cristãos, mas especialmente dos pastores, incluindo a oração, trabalhando através das tradições religiosas, participando de protestos e desobediência civil, e engajando-se em ação política.

Uma pesquisa informal sobre mídia social em 13 de agosto sobre se as igrejas abordaram os eventos em Charlottesville ou o racismo em geral constatou que poucas participaram, especialmente entre paróquias predominantemente brancas, segundo MT Dávila, professor associado de ética cristã na Escola Teológica Andover Newton. , outro organizador.
Dávila espera que a declaração – assinada por cristãos de um amplo espectro denominacional e até mesmo ideológico – dê aos pastores “permissão para pregar uma palavra que seja fiel ao Evangelho e que condene o racismo pela violação do bem comum e da dignidade humana”.
Nas igrejas negras, no entanto, Charlottesville estava na mente de todos.
“É simplesmente mais uma indicação de algo que já conhecemos”, disse Reggie Williams, professor associado de ética cristã no McCormick Theological Seminary, em Chicago, que assinou o comunicado.
Ele disse que a forte linguagem da declaração “coloca no papel o que significa ser moralmente fiel a Cristo neste momento”.
Mas outros signatários e organizadores esperam que isso aconteça mais do que isso.
“Precisamos ser muito mais ativos e proativos em falar contra o racismo em todas as suas formas – individual e estrutural”, disse Floerke Scheid. “Se não podemos fazer isso, seremos irrelevantes como igreja.”

Heidi Schlumpf é correspondente nacional da NCR. Texto publicado originalmente em https://www.ncronline.org/news/justice/christian-ethicists-racism-white-supremacy-are-christian-problem

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Caio Marçal, Cidadania, Direitos Humanos, Espiritualidade, Política, teologia

Entrevista com Caio Marçal no Teologia de Boteco

Entrevista com Caio Marçal no Teologia de Boteco sobre a Rede FALE, um grupo de cristãos que se organiza pra falar pelos oprimidos. Uma boa conversa sobre posicionamento politico dos cristãos e mais um monte de coisas boas e varias risadas. Assista!

 

Direitos Humanos, igreja, Política, teologia

Teólogos se manifestam sobre a situação política do Brasil

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Teólogos e pesquisadores da área da Religião presentes no 31º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, realizado entre os 10 a 13 de julho de 2018 em Belo Horizonte, manifestaram-se através sobre o presente realidade brasileira através de uma carta pública.

Abaixo segue a declaração.

CARTA-MANIFESTO

Belo Horizonte, 13 de julho de 2018.

“Será que Deus se enganou ao criar-nos assim, negros,
como somos?”
Paulina Chiziane

Cidadãs e cidadãos brasileiros:

Sob o impacto das conferências que ouvimos no 31º Congresso Internacional da SOTER, realizado em Belo Horizonte, de 10 a 13 de julho de 2018, a partir do tema “Religião, Ética e Política”, do testemunho profético da escritora moçambicana Paulina Chiziane, e dos debates entre os mais de 550 participantes do evento, tomamos a liberdade de nos manifestar à sociedade brasileira porque o momento vivido no país é da maior gravidade. Como intelectuais e estudiosos das mais diversas expressões religiosas e dos dramas vividos por nosso povo, não podemos nos calar, muito menos como pessoas de fé que pautam suas vidas pela coerência na luta pela justiça, pela democracia e pela dignidade humana.
Como observadores atentos da conjuntura atual brasileira, denunciamos o processo iníquo de desconstrução da frágil democracia que vimos construindo duramente depois de mais de 20 anos de ditadura civil-militar. Percebemos que há um claro intento, em curso, de quebra do Estado Democrático de Direito, com a não garantia plena dos direitos e garantias fundamentais contidas na Constituição Federal de 1988, a relativização desses direitos em nome da racionalidade do mercado, que não está mais sob o controle do Estado Democrático de Direito. Constatamos a precarização das conquistas sociais e dos direitos da classe trabalhadora; o recrudescimento de distintas formas de violência que atingem particularmente os mais pobres e vulneráveis, os povos indígenas, os quilombolas e as populações tradicionais, além da violência crescente contra movimentos sociais e suas lideranças. Assistimos, indignados, ao aumento do feminicídio e da impunidade, ao desrespeito aos direitos humanos, à onda de intolerância religiosa e à disseminação do ódio social nas mídias abertas e redes sociais, situação que vem chegando às raias do crime contra a pessoa em número inédito neste país. Parece-nos, igualmente, um equívoco a militarização do combate ao crime organizado e a imposição da ordem social pela força em detrimento da liberdade de ir e vir e de um plano de segurança debatido amplamente pela sociedade.
Diante deste quadro dramático, como Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, reivindicamos publicamente as seguintes medidas que podem ajudar o país a retomar o caminho da democracia e da paz social:

1. Resgate da Democracia, do Estado Democrático de Direito e da Soberania Nacional;
2. Recuperação dos serviços públicos de saúde para toda a população, com a sustentação prioritária do SUS;

3. Revogação das leis antipopulares como a Reforma Trabalhista e a Lei do engessamento do Orçamento Nacional por 20 anos;
4. Recuperação da Educação pública, gratuita e universal em todos os níveis e a garantia da continuidade da pesquisa nacional autônoma;
5. Demarcação dos territórios indígenas, das terras quilombolas, das terras dos povos originários, sobretudo na Amazônia;
6. Reforma Agrária com apoio creditício e técnico à agricultura familiar, à agroecologia e à agricultura orgânica; retomada do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos pelo governo federal e instituições públicas de ensino; a redução do uso de agrotóxicos;
7. Combate à impunidade e ao feminicídio, com garantia da vida de mulheres ameaçadas;
8. Garantia de liberdade de culto para todas as expressões religiosas sem interferência
do Estado;
9. Garantia plena do direito de opinião, de exercício do pensamento crítico e do debate público nas escolas em todos os níveis;
10. Resgate da ética na política com participação popular, garantia plena do voto popular
e do direito às candidaturas de todas as pessoas;
11. Resgate do direito pleno à presunção de inocência, cf. o artigo 5º da CF 1988;
12. Resgate da dignidade de isenção do Poder Judiciário;
13. Democratização das mídias abertas e controle dos monopólios da informação;
14. Defesa irrestrita da vida das pessoas, do meio ambiente e resgate do instituto da
precaução, sobretudo na agricultura de exportação e da monocultura;
15. Promoção da dignidade de todas as pessoas e dos direitos humanos conforme os
Planos Nacionais de Direitos Humanos.

 

No momento em que o pais vive talvez sua mais grave crise social, política, econômica, ambiental e moral, a SOTER, seus membros e participantes deste Congresso Internacional conclamam publicamente o povo, as instituições científicas, as comunidades de fé, os movimentos sociais, as igrejas, os sindicatos, as entidades civis, as associações e as cooperativas a levantarem sua voz em defesa dos direitos e garantias fundamentais, e a buscar com organização e criatividade caminhos para o resgate da Democracia participativa e transformadora, única forma de evitar o caos social, o abuso do poder estabelecido e a violência sem tréguas.
Inspirados pelo Espírito da Vida que sopra dos quatro ventos da terra, afirmamos nossa esperança de novos céus e nova terra, com cidadania, justiça e paz.

A Diretoria
Cesar Kuzma – Presidente da SOTER
Maria Clara L. Bingemer
Paulo Fernando C. de Andrade
Solange Maria do Carmo
Alex Villas Boas Mariano
Participantes do 31º Congresso Internacional da SOTER 2018

Cidadania, Direitos Humanos, JUVENTUDE

Reduzir a maioridade é manter a exclusão social da juventude

Texto: Plínio Gentil

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É claro que existe violência praticada por menores de 18 anos e que deve ser de alguma forma enfrentada. A questão é “a partir de que idade” esse enfrentamento deve ser regulado pelo direito penal. Toda repressão, antes ou depois da maioridade, deve ser acompanhada de um processo de reeducação. Esse processo é um para adolescentes e outro para adultos – imaginando como adulto o maior de 18 anos.

Os países em que a chamada maioridade penal é anterior a essa idade aplicam, na verdade, medidas parecidas com as nossas para os adolescentes, só que chamam isto de pena. Nós as chamamos de medidas sócio-educativas, que também incluem a prisão, chamada de internação. Há, portanto, uma diferença de nomes mais que de conteúdos.

Sobre a questão dos 18 anos: as legislações que adotam este número para início da maioridade penal atendem recomendações de fóruns mundiais multidisciplinares, cujas conclusões apontam que o pleno desenvolvimento mental de uma pessoa, na média, somente é alcançado aos 18 anos de idade. Assim, ao adotarmos esse padrão, nos alinhamos com o que há de mais desenvolvido, do ponto de vista da psiquiatria, psicologia, sociologia, direito e outras ciências, no que diz respeito à fixação da maioridade penal.

Fora isto, há, como se sabe, elementos sociais e políticos no tema: o destinatário preferencial do direito penal é o indivíduo marginalizado, a quem o nosso modelo sócio-econômico-cultural tudo dificultou, a começar do acesso a bens fundamentais, como alimentação, lazer, educação, cultura, moradia e outros. A violência que manifestam é, antes de tudo, resultado dessa miséria sociocultural. Cultural também, porque às vezes o sujeito tem recursos, mas culturalmente é um alienado, para quem a ostentação é o máximo de realização pessoal possível.

Para os infratores menores de dezoito anos, a legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê diversas medidas, que vão da advertência à internação, que pode durar até três anos. Só que, normalmente, nossas autoridades aplicam somente essas duas, que são extremas: uma de nada adianta, a outra às vezes é desnecessária e põe o adolescente em contato com delinquentes piores do que ele. Dá-se pouca importância ao estudo do direito do adolescente. Tanto que o assunto quase não é tratado nas faculdades e ninguém vê escritórios de advocacia especializados nessa matéria.

Talvez o pouco caso que se faz do tema esteja alimentando o discurso dos que são favoráveis a tratar o adolescente infrator como criminoso adulto. Acham que a cadeia dos adultos é que vai consertar o jovem. Só que criticam a superlotação das mesmas cadeias, chamam-nas de escolas do crime e dizem que o sistema carcerário está falido. O que querem, então? Será o capital privado desejando mais e mais presos pra mais tarde ganhar dinheiro com presídios particulares?

Parte dos defensores da redução da maioridade, aqueles que têm fácil acesso à grande imprensa, que vive da publicidade de ricos anunciantes, bem sabe que não serão os seus filhos adolescentes que arcarão com o peso da repressão penal, mas, sim, aqueles habitualmente excluídos e discriminados: jovens da periferia, vítimas de todo tipo de violência, inclusive policial e racial.

Além disso, tratar a questão como caso de polícia é, mais que tudo, arranjar uma bela desculpa para não fazer nada em relação à exclusão social de grande parcela da população adolescente. Algo como varrer a sujeira pra debaixo do tapete. Será uma boa política simplesmente desistir da nossa juventude?


Texto publicado originalmente em  CENTRO DE ESTUDOS BÍBLICOS – CEBI

Cidadania, Direitos Humanos, Política

Moradia e movimentos sociais: ‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

via Rede Brasil Atual*

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Entidades prestam solidariedade às famílias desalojadas de ocupação incendiada em São Paulo, repudiam a criminalização dos movimentos sociais e exigem enfrentamento da questão da moradia pelo poder público

São Paulo – Em notas divulgadas na noite de terça-feira (1˚), um total de 38 movimentos sociais ligados à luta por moradia manifestaram solidariedade às cerca de 150 famílias vítimas do incêndio que destruiu uma ocupação no centro da capital paulista, na madrugada do mesmo dia. As entidades também repudiam a tentativa – pela mídia tradicional e pelo poder público – de responsabilizar os moradores pela tragédia e cobram políticas públicas que atendam à demanda por moradia popular na cidade e no país.

“Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação”, disse o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto(MTST), em nota própria.

As entidades, além de reafirmar a unidade dos movimentos por moradia, exigem a responsabilização do Estado pelas omissões que resultaram na tragédia – em que ao menos uma pessoa morreu e, até a manhã de hoje (2) 44 estavam desaparecidas –, e medidas que façam o enfrentamento à especulação imobiliária, que inviabiliza o acesso à habitação para as famílias de baixa renda.

“Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal. Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados?”

O MTST explica ainda que não tem ocupações no centro de São Paulo e que não cobra das famílias nenhuma taxa por fazerem parte das ocupações organizadas, como foi divulgado de forma mentirosa.

Leia as íntegras das notas:

Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) tem mais de 20 anos de história de luta por moradia no Brasil. Nesse período colaborou para que milhares de pessoas tivessem acesso à moradia digna, um direito constitucional negado a mais de 6 milhões de famílias no país.

Nos últimos dois anos, estivemos na linha de frente das lutas e denúncias contra os cortes no orçamento da habitação. No ano de 2017, o governo Temer destinou apenas 9% dos valores previstos com moradia no orçamento. A faixa mais afetada foi a de baixa renda, que compreende famílias que recebem até 1.800 reais. Enquanto isso a Caixa Econômica ampliou o limite de financiamento para imóveis de luxo, uma completa inversão de prioridades.

O incêndio no edifício no Centro de São Paulo essa madrugada (1º de maio) deixou mais de 150 famílias desalojadas; não se sabe ainda o número exato de vítimas.

A solidariedade às famílias que perderam tudo nessa tragédia é dever de todos nesse momento. Não podemos aceitar que uma catástrofe como essa seja utilizada para criminalizar aqueles que lutam por uma vida mais digna. Por isso repudiamos notícias tendenciosas da imprensa e comentários como o do governador Marcio França, que culpam as próprias famílias pelo seu infortúnio. Repudiamos também comentários preconceituosos que se amontoam nas redes.

Reafirmamos mais uma vez: as ocupações não são uma escolha, mas a única opção para milhares de famílias, diante da grave crise que assola o país e da falta de políticas públicas de habitação.

Aproveitamos o momento para esclarecer alguns pontos:
  • A ocupação vítima do incêndio não era organizada pelo MTST e sim por outro movimento de moradia, o Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM);
  • Desde que tivemos acesso às notícias do incêndio, integrantes do MTST, juntamente com outros movimentos de moradia de São Paulo se mobilizaram para discutir estratégias de solidariedade às famílias;
  • O MTST não tem ocupações no centro de São Paulo e não pratica a cobrança de nenhum valor das famílias organizadas em nossas ocupações.

‘Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito’

Na madrugada do dia 1º de maio de 2018, em São Paulo, uma tragédia aconteceu na ocupação do Largo Paissandu. As entidades e movimentos sociais que atuam na defesa do direito à moradia vêm manifestar solidariedade às famílias que estavam no imóvel. É inadmissível que este momento de tristeza e dor seja manipulado pelos verdadeiros responsáveis por tais situações para criminalizar os movimentos e os trabalhadores de baixa renda, que não têm alternativa senão viver nas ocupações.

As famílias que vivem em ocupações são vítimas do descaso, da irresponsabilidade do Estado e da especulação imobiliária – que impõem alto custo de habitação, sobretudo nas áreas centrais. Não é a primeira e não será a última tragédia, enquanto o investimento público para o enfrentamento do problema habitacional não for significativo e comprometido com o acesso à moradia como um direito.

Enquanto a população de baixa renda é penalizada, os latifúndios urbanos concentram dívidas milionárias e descumprem reiteradamente a Constituição Federal.

A Prefeitura desrespeita o Plano Diretor, uma vez que há mais de um ano deixou de notificar os proprietários de imóveis que não cumprem a função social da propriedade, o Governo Federal corta o Programa Minha Casa Minha Vida para os mais pobres e o Governo do Estado tem apostado suas ações na implantação das Parcerias Público-Privadas, que não atendem os mais pobres e enriquecem as empreiteiras e donos de imóveis.

Ainda, o Poder Judiciário – que goza de um imoral auxílio moradia – ignora o descumprimento da lei pelos proprietários e se posiciona, via de regra, pelo despejo e remoção de milhares de famílias, agravando a desigualdade social. Existem inúmeros imóveis públicos em plenas condições de reforma para uso habitacional.

As ocupações são a resposta das famílias organizadas frente a essa situação. Os atuais Governos, ao acusar os movimentos, demonstram uma atitude covarde por parte daqueles que são os principais responsáveis por essa crise e, em aliança com o mercado, pelo aprofundamento da tragédia urbana.

Por fim, reiteramos unidade na resistência de cada ocupação e exigimos: a responsabilização do Estado em cada recusa à regularização de energia elétrica, saneamento e prevenção de riscos em ocupações; o investimento público na viabilização de moradias dignas; o enfrentamento à especulação imobilária; políticas de mediação de conflitos fundiários com participação popular; a conversão dos edifícios ociosos em moradia popular; e a regularização fundiária de ocupações.

Quantos prédios ainda irão cair até que sociedade e governos entendam que a moradia é um direito de todos e um dever do Estado? Permaneceremos mobilizados.

São Paulo, 1º de maio de 2018

Assinam:

Central de Movimentos Populares
Frente de Luta Por Moradia
UMM SP – União dos Movimentos de Moradia
MTST
Movimento de Moradia para Todos
Frente Brasil Popular
Frente Povo Sem Medo
Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
Peabiru TCA
Usina CTAH
Laboratório Justiça Territorial UFABC
Coletivo de ocupações, favelas e cortiços da cidade de São Paulo
Observatório de Remoções
Observa SP
Labcidade FAU USP
LabHab FAU USP
Fórum Aberto Mundaréu da Luz
Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo – SASP
Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico – IBDU
Instituto Pólis
Rede Mulher e Habitat
Secretaria Latino Americana de Vivienda y Habitat Popular
Hic – Coalizão Internacional Habitat
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1
Movimento de Moradia da Região Sudeste
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Zona Oeste
Unificação das Lutas de Cortiços e Moradia
Movimento em Defesa do Favelado da Região Belem
Movimento de Defesa dos Favelados – Santo André
Associação dos Sem Teto Taboão Diadema
Associação Independente Da Vila Nova Esperança
Associação de Moradores da Sólon
Movimento de Moradia City Jaraguá
Movimento de Moradia na Luta por Justiça
Associação Nossa Luta Nossa Terra Diadema
Central Pró Moradia Suzanense Cemos
Movimento Independente de Luta Por Habitação de Vila Maria – Ocupação Douglas Rodrigues
Associação de moradores Pantanal capela do socorro
Movimento Terra Livre
Direitos Humanos, Espiritualidade, igreja, teologia

As evangélicas e a justiça de gênero

por Magali do Nascimento Cunha 

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As injustiças contra as quais as mulheres lidam atualmente são derivadas da ideologia de gênero patriarcal

Homens e mulheres são seres humanos dotados de diferenças biológicas. Os povos, ao longo da história da humanidade, construíram modos de vida (culturas) que determinaram papéis específicos para machos e fêmeas/homens e mulheres. Assim foi construída a cultura do patriarcado.

Nesse modo de vida, a organização coletiva é baseada no poder do homem como reprodutor da espécie, provedor da família: o patriarca – o pai, os irmãos, os tios, o marido, os filhos. Este poder é justificado pela ideia de que o homem é o ser com mais força física, mais inteligência e capacidade de liderar. A mulher teria seu próprio papel: participar da reprodução da espécie com a gestação, cuidar da sua cria e da moradia que abriga a família. Por ser considerada mais frágil, dotada de menor inteligência e baixa capacidade de liderança, a mulher é destinada a cuidar e servir.

Resultado disso é a submissão das mulheres ao poder do homem e a repressão e controle dos seus corpos. Com isso emergem a exploração sexual, a opressão do trabalho da mulher, a discriminação das mulheres que rompem com o papel de dominação, a condenação dos homens que se solidarizam com as mulheres.

Esta forma cultural é assimilada nas religiões, e entre os cristãos é fundamentada pela interpretação literalista dos escritos bíblicos. Nesta compreensão, a mulher seria responsável pela existência dos males no mundo, devendo se resumir ao cuidado com o lar e estar em silêncio nos espaços públicos destinados aos homens.

Esta ideologia de gênero continua sendo difundida pela educação formal, pelo conjunto de leis, pelos meios de comunicação, pelas religiões. Como o poder de uma ideologia é tornar as coisas naturais, homens e mulheres a reproduzem como algo “normal” e certo. E dela vêm o silenciamento, a conformação e também a violência nas suas mais diversas formas: física, psicológica, sexual, patrimonial.

Nos primórdios da Igreja Cristã, à luz das ações de Jesus de Nazaré, houve um rompimento com o patriarcado e abertura ao lugar de atuação das mulheres (várias narrativas da Bíblia mostram isto). O silenciamento das mulheres no Cristianismo se dá a partir da institucionalização do movimento cristão e o lugar delas volta a ser enfatizado como reprodutoras, domésticas, cuidadoras.

O questionamento desta lógica nas sociedades ocidentais emergiu, marcadamente, na Revolução Francesa, por meio das noções de cidadania, igualdade, liberdade, que deflagraram processos de transformação na compreensão de família, com a inserção da dimensão da afetividade.

Os movimentos feministas dos séculos 19 e 20, baseados nas descobertas da psicanálise, da filosofia e da biociência, consolidaram este processo com a desnaturalização do poder do homem sobre o corpo da mulher, com a emergência do conceito de gênero para além do feminino e do masculino, pela afirmação da sexualidade como autônoma em relação à reprodução humana. Garantiu-se mais direitos civis das mulheres ao próprio corpo, ao seu destino e à participação sociopolítica.

Cristãs identificadas com esta visão passaram então a buscar um novo olhar sobre o movimento de Jesus de Nazaré e das mulheres da Bíblia. Buscaram ocupar seu espaço nas igrejas em papéis de liderança como pastoras, bispas e leigas. Surge a teologia feminista com uma releitura da Bíblia sob a ótica das mulheres, bem como uma nova abordagem da história da Igreja e de suas teologias.

No Brasil, ganham destaque teólogas evangélicas como a luterana Romi Bencke (atual secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs/Conic), a metodista Nancy Cardoso, a batista Odja Barros, entre outras.

Também em nosso País, grupos como Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), liderado por Valéria Vilhena, de tradição pentecostal, se espalham em diferentes espaços, e cada vez mais mulheres de distintas faixas etárias se descobrem como sujeitos da ação libertadora de Deus e não do seu castigo.

É fato que todo este avanço tem provocado reações. Elas têm como alvo os movimentos por justiça de gênero dentro e fora das igrejas, interpretados por segmentos defensores da cultura patriarcal como inimigos a serem combatidos.

Às mulheres que rompem com a compreensão patriarcal do seu papel social é atribuída a culpa pela “destruição da família”, porque buscam mais estudo, trabalho e atuação na sociedade, liderança de processos, controle da natalidade. Com isso, lideranças reacionárias, homens e mulheres, pregam que as “as rebeldes” retornem para dentro dos lares, que se casem e vivam para agradar maridos e filhos, e evitar as “feminazis” destruidoras de famílias.

Esta reação se dá porque há avanços e transformação. Mas ainda há muito o que enfrentar. Doze mulheres são assassinadas todos os dias, em média no Brasil, e 135 sofrem estupro diariamente. Em 2017, houve aumento para 29% do número de mulheres brasileiras que sofreram violência doméstica. O rendimento médio dos brasileiros em 2015, segundo o IBGE, era de 1.808 reais, mas a média masculina era mais alta (2.012 reais), e a feminina, mais baixa (1.522 reais).

São dados alarmantes de muita injustiça ancorada na ideologia de gênero patriarcal! A leitura das mulheres cristãs que buscam justiça de gênero é que Deus não criou o patriarcado, algo contraditório com o seu amor, pois produz silenciamento, violência e morte. Pelo contrário, o Criador ama as mulheres, sua imagem e semelhança, e compartilha com elas do desejo de “vida e vida em abundância”.


Fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/as-evangelicas-e-a-justica-de-genero

Direitos Humanos, igreja, Opinião, Política, teologia

As raízes afro-americanas do cristianismo de Bonhoeffer

Alan Bean

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Dietrich Bonhoeffer foi o único cristão proeminente na Alemanha a compreender as terríveis implicações espirituais de Adolf Hitler e os nazistas desde o início. A famosa “primeira vez que eles vieram para” litania de Martin Niemoller esboçou um padrão típico na Alemanha do Terceiro Reich:

Primeiro eles vieram para os socialistas, e eu não falei – 
Porque eu não era socialista. 
Então eles vieram para os sindicalistas, e eu não falei – 
Porque eu não era um sindicalista. 
Então eles vieram para os judeus, e eu não falei – 
Porque eu não era judeu. 
Então eles vieram para mim – e não havia mais ninguém para falar por mim.

Bonhoeffer percebeu desde o início que Jesus estava ao lado dos socialistas, dos sindicalistas, dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, dos intelectualmente desafiados e de todos os outros substratos da sociedade visados ​​pelos nazistas. Karl Barth, o principal autor da famosa Declaração de Barmen , tomou uma posição corajosa contra os nazistas, e ele não estava sozinho. Mas, como sugere o mea-culpa de Niemoller , “a Igreja Confessante” estava primariamente preocupada com a reescrita da teologia cristã pelos nazistas; a situação das vítimas não-cristãs de Hitler era estritamente secundária.

Reggie Williams, professor assistente de ética cristã no Seminário Teológico McCormick, argumenta em seu livro recente, Bonhoeffer’s Black Jesus , que Dietrich Bonhoeffer entendia a alma nazista porque via a realidade alemã através das lentes da teologia negra americana mediada pela pregação de Adam Clayton. Powell Sr., pastor da Igreja Batista Abissínia do Harlem.

Reggie Williams

Este não é um livro sobre a teologia de Bonhoeffer, por si só. Muita teologia trai a suposição de que o pensamento humano é abstraído das dificuldades da experiência. Felizmente, Williams não comete esse erro.

Williams começou a refletir sobre as raízes negras do cristianismo de Bonhoeffer durante um curso ministrado pelo Dr. J. Alfred Smith, pastor sênior da Allen Temple Baptist Church em Oakland, Califórnia. “A espiritualidade afro-americana é uma espiritualidade que nasceu e moldou no calor dA opressão e sofrimento ”, Smith disse aos seus alunos. “A negritude é uma metáfora para o sofrimento. Conhecer a negritude é estar ligado ao sofrimento, esperança e propósito dos negros. ”

Bonhoeffer passou a “conhecer a negritude” como bolsista de Sloane no Union Theological Seminary, em Nova York, durante o ano acadêmico de 1930-1931. Williams argumenta, persuasivamente, que o talentoso prodígio teológico manteve uma cosmovisão tipicamente alemã quando chegou à União.

A Alemanha foi humilhada pelo Tratado de Versalhes que responsabilizou o povo alemão pela carnificina da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha entrou na grande depressão mundial de 1929, já cambaleante sob as reparações econômicas paralisantes impostas em Versalhes.

Além disso, os vencedores da Primeira Guerra Mundial privaram a Alemanha de suas posses coloniais. Com a maioridade durante esse doloroso período, a teologia antiga de Bonhoeffer enfatizou a necessidade de solidariedade com o Volk alemão, um povo que, apesar de todo o seu infortúnio, representava o ápice da evolução humana. A religião era misturada com a vida cotidiana, e o principal negócio da vida cotidiana era restaurar o orgulho nacional alemão.

A expressão predominante do cristianismo na Alemanha do pós-guerra foi um mal-estar do luteranismo, do darwinismo social e do nacionalismo fundido em uma visão triunfalista da história descrita como a ordem de criação de Deus. … O conceito de ordens tornou-se um suporte teológico para a língua nazista de sangue e solo, ou superioridade racial e um puro Volk..

Tomando sua sugestão de Willie Jennings , Williams caracteriza a academia teológica européia como o produto de “uma imaginação social doentia”.

A infecção ocorreu quando a teologia se fundiu com o sistema colonial para fornecer autoridade religiosa para centrar o mundo no imaginário europeu, tornando Cristo um homem europeu branco e oferecer uma apologética para a dominação e o autoritarismo.

O que WEB Du Bois chama de “a linha da cor” foi um resultado direto da fidelidade européia a um Cristo branco. Williams argumenta que:

O projeto de teologia no colonialismo foi dividido nesta assembléia [européia]; era primariamente doutrinal e conceitual, sem conteúdo para a conduta cristã. Essa divisão era necessária para justificar a dominação de corpos estranhos que acompanhavam a classificação dos seres humanos pela raça, assegurando as vantagens da branquitude e acomodando as práticas do colonialismo.

A ideologia nazista, em outras palavras, era uma expressão notória da teologia imperialista e eurocêntrica que dominava o mundo branco. “O Cristo branco era o músculo teológico da estrutura de poder da linha de cor e suas manifestações globais”, diz Williams. “Colonização, imperialismo, nacionalismo e terrorismo branco na América” ​​faziam parte da mistura.

O livro é intitulado Black Jesus off Bonhoeffer porque, acredita Williams, o Jesus branco da teologia europeia não conseguiu captar o significado espiritual do racismo, do imperialismo ou, mais significativamente, do desafio nazista ao cristianismo.

Apenas a Igreja Negra, Williams afirma, poderia dar testemunho de um Jesus negro. Bonhoeffer, como qualquer estudioso de sua vida sabe, ficou angustiado com o tipo de espiritualidade oferecido no Union Seminary e as igrejas brancas que ele encontrou na América. Imerso no que muitos consideram o ponto alto da religião liberal americana, Bonhoeffer não se impressionou.

Em Nova York, eles pregam praticamente tudo; apenas uma coisa não é abordada, ou é abordada tão raramente que até agora não consegui ouvi-la, a saber, o evangelho de Jesus Cristo. … Então, o que está no lugar da mensagem cristã? Um idealismo ético e social sustentado por uma fé em progresso que – quem sabe como? – reivindica o direito de se chamar de “cristão”.

Cristãos conservadores usaram comentários desse tipo para reivindicar Bonhoeffer como um deles; mas Williams chama isso de um erro. Não havia nada mais tipicamente “conservador” na América do que o cristianismo de Jim Crow que floresceu no sul. O Jesus Negro de Bonhoeffer argumenta que Bonhoeffer entendeu a religião nazista observando-a através das lentes da linha de cor norte-americana e suas viagens no sul dos Estados Unidos foram particularmente instrutivas a esse respeito. O teólogo alemão não se inspirou em brancos cristãos americanos, liberais ou conservadores.

Williams não está sugerindo que todas as igrejas negras eram igualmente hábeis em discernir e proclamar o Jesus negro, mas (seguindo J. Alfred Smith) ele argumenta que o distintivo sofrimento da América negra, refletido de modo pungente no que então se chamava “espirituais negros, ”Implicou uma crítica do Jesus branco da Europa.

A imaginação teológica branca do período foi capturada pela tensão entre as versões fundamentalista e liberal do cristianismo. Oito anos antes de Bonhoeffer chegar à América, Harry Emerson Fosdick havia pregado “Shall the fundamentalists win”, um sermão que, através das ministrações de John D. Rockefeller Jr., acabaria por fazer de Fosdick o pastor fundador da Igreja Riverside de Manhattan, localizado logo abaixo. rua do Seminário da União. A preocupação cristã negra transcendia essa tensão liberal-conservadora porque tinha preocupações mais imediatas.

A maioria dos brancos liberais não via a supremacia branca como uma questão de atenção cristã e, como consequência, ignoravam os perigos constantes da vida cotidiana dos negros na América. Mas evitar o racismo não era uma escolha para os cristãos afro-americanos; era uma questão de vida ou morte em uma sociedade organizada pela raça e imposta pela violência.

O guia de Bonhoeffer para o mundo do cristianismo negro do Harlem foi Albert Fisher, o filho de Charles Fisher, pastor da Igreja Batista de 16th Street de Birmingham e, como Bonhoeffer, um membro da Sloan na Union. O jovem alemão podia descer a rua pela esplêndida Riverside Church de Fosdick por iniciativa própria; mas ele precisava da amizade de Albert Fisher para cruzar a linha da cor.

Williams não está sugerindo que o breve período de estudo de Bonhoeffer na América tenha sido a única influência significativa em seus pensamentos posteriores. Matthew Kirkpatrick argumentou recentemente que o “cristianismo sem religião” desenvolvido por Bonhoeffer em uma prisão nazista foi inspirado pela crítica radical de Soren Kierkegaard à cristandade e duvido que Williams discorde. O argumento é que o encontro de Bonhoeffer com o Jesus negro no Harlem permitiu que ele simpatizasse com o sofrimento do povo marginalizado tão profundamente que, em seu retorno à Alemanha, o espírito diabólico do Nacional-Socialismo de Hitler foi prontamente aparente.

O título completo do livro de 140 páginas de Williams é Black Jesus: A Teologia do Renascimento do Harlem e uma Ética da Resistência, de Bonhoeffer . O autor nos leva a um rápido tour pela Harlem negra de meados da década de 1930, apresentando-nos o trabalho de WEB Du Bois, Alain Locke, Claude McKay, Geórgia Douglas Johnson, Langston Hughes e Countee Cullen.

Como essas vozes muitas vezes discordantes debatiam, discutiam, faziam sermões, anatematizavam e batizavam, surgiu uma perspectiva única que transcendia os limites da teologia americana branca. Alguns no Harlem argumentaram que o cristianismo era indelevelmente associado à supremacia branca para ser útil aos afro-americanos.

Mas havia outra opção. Talvez os cristãos brancos que introduziram negros africanos ao Cristo não conhecessem seu Salvador muito bem. Talvez o horror da experiência negra na América pudesse lançar luz sobre esse homem de tristezas. Muitas vezes, os poemas e ensaios emergentes do Harlem Renaissance encontram espaço para todos os lados deste debate.

Countee Cullen, The Black Christ, explica

Como o Calvário na Palestina, 
Estendendo-se para mim e para o meu, 
Era apenas a primeira folha em uma linha, 
De árvores em que um Homem deveria balançar O 
mundo sem fim, em sofrimento.

Bonhoeffer fez referência ao The Black Christ em sua escrita e seguiu as principais figuras do Harlem Renaissance nas páginas da Crisis da NAACP e da Opportunity da National Urban League. Reinhold Niebuhr, um dos professores de Bonhoeffer na Union, às vezes fazia alusão aos escritores negros em suas palestras. Em uma carta a Niebuhr em 1933, Bonhoeffer aludiu a um ensaio (agora perdido) sobre literatura negra que escreveu durante o seu ano na América.

“A prática de unir-se aos afro-americanos no Harlem”, diz Williams, “deu a Bonhoeffer a capacidade de ver mais claramente a distinção entre uma teologia prejudicial da glória, representada por um Cristo branco que recusa encarnação e empatia, e a teologia mais saudável de a cruz que revela a presença de Deus escondida no sofrimento ”.

Williams sugere que Bonhoeffer aprendeu tanto com as jovens vozes desdenhosas que rejeitaram o Jesus branco como uma causa sem esperança, como ele aprendeu com aqueles, como Georgia Douglas Johnson, que abraçou um Jesus negro.

Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
E para toda a humanidade vamos orar, 
Esquecendo os erros neste dia. 
Ele foi desprezado e nós também, 
como ele, vamos ao Calvário; 
Ele nos conduz por sua mão sangrando, 
Por caminhos que não entendemos. 
Venham irmãos, levante a sua voz, 
o Cristo nasce, vamos nos alegrar! 
Não devemos ao mundo inteiro dizer – 
Deus te abençoe! É dia de Natal!

A associação de Bonhoeffer com a Igreja Batista Abissínia permitiu-lhe ir além das expressões literárias da América negra para a experiência vivida de uma congregação excepcional vivendo em tempos difíceis. As cartas de Bonhoeffer revelam a profundidade de seu envolvimento no Abyssinian:

Todos os domingos, às 2:30 da tarde e junto com meu amigo [Albert Fisher], e muitas vezes como seu substituto, [eu] tinha um grupo de jovens negros na escola dominical; Eu conduzi estudo bíblico para algumas mulheres negras e uma vez por semana ajudei em uma escola da igreja durante a semana. Assim, não só me familiarizei com vários jovens negros; Eu também visitei suas casas várias vezes. Essa familiaridade pessoal com os negros foi um dos eventos mais importantes e gratificantes da minha estada na América.

O abissínio era um mundo estrangeiro para o alemão aristocrático, mas isso era uma grande parte do seu charme. Bonhoeffer havia encontrado uma nova maneira de ver o mundo. Williams chama o Renascimento do Harlem de uma “transformação comunitária da consciência”. Muitas das novas idéias e teologias experimentais eram novas para Adam Clayton Powell Sr. também, e o pastor de Bonhoeffer estava elaborando os contornos de uma nova teologia nas manhãs de domingo.

Powell foi fortemente influenciado pelo movimento do evangelho social com sua ênfase no envolvimento criativo com o sofrimento humano, injustiça institucional e solidariedade com os pobres. Mas os ícones do evangelho social como Washington Gladden, Josiah Strong, Theodore Munger e Walter Rauschenbusch estavam cativos demais para um otimista modelo darwiniano de evolução cultural para prestar muita atenção aos perdedores na competição racial dos Estados Unidos. A sociedade humana estava evoluindo em uma direção gloriosa, o pensamento se foi, e a raça branca estava na vanguarda da revolução. Homens como Josiah Strong repreendiam a “raça branca” por sua exploração insensata das “raças menores”, mas a supremacia branca era simplesmente assumida .

Adam Clayton Powell

Powell herdou a estrutura básica de sua teologia dos teólogos evangélicos sociais brancos, mas nas mãos dos pensadores brancos essa tradição foi prejudicada pelo otimismo do racial chauvinismo que Williams disseca nas primeiras páginas deste livro. Powell entendeu que ele estava empurrando a lógica social do evangelho para o território virgem:

 

A igreja negra é a única igreja que se opõe persistentemente ao linchamento e o púlpito negro é o único púlpito que tem pregado incessantemente a irmandade do homem.

O Harlem Renaissance se desenrolou durante a pior depressão econômica da história americana e uma “Grande Migração” que atraiu centenas de milhares de afro-americanos da opressão racial severa do sul dos EUA para cidades do norte como Chicago, Detroit, Cleveland e, é claro, Harlem .

A Grande Migração trouxe os negros para o Harlem, esperançosos e sonhando com uma terra prometida, para enfrentar o desapontamento e o desespero. Em seu desespero, eles se voltaram coletivamente para a igreja negra como sua ajuda e centro familiar de comunidade.

Powell estava criando “uma experiência negra da igreja que é fortalecida por uma interpretação negra de Cristo no contexto da sobrevivência afro-americana”. Powell admitiu a realidade do “cristianismo opiáceo”, mas localizou a raiz do problema no que Williams chama de “o compartimentalização do cristianismo, em vez de cristianismo abrangendo toda a vida ”.

O tumulto social em torno da Abyssinian Baptist Church deixou Powell insatisfeito com os princípios relaxantes do liberalismo branco otimista. “O homem precisa ser terminado”, disse ele, “mas ele não pode ser terminado até que seja desfeito.” A ascensão intelectual a proposições teológicas não significava nada, ensinava Powell, se o que acreditamos está desconectado de um mundo em sofrimento. Os migrantes desesperadamente pobres que chegavam ao Harlem no auge da Grande Depressão pediam a conversão da Igreja.

É também nosso dever obter posições de homens e mulheres durante essa depressão do desemprego, como é levá-los à igreja. … Um homem faminto e frio não terá muita paciência com uma palestra sobre espiritualidade.

Foi essa ênfase na fé vivida, Williams acredita, que moldou como Bonhoeffer “entendeu o que a igreja deveria estar fazendo quando a luta da igreja começou em 1933.… A tradição de Jesus, o cosufferer escondido no sofrimento e vergonha que Bonhoeffer encontrou dentro do ministério de Powell e dentro do movimento literário do Renascimento do Harlem permaneceu com ele quando ele voltou para casa ”.

O Bonhoeffer que retornou à Alemanha depois de um ano tumultuado na América surpreendeu, encantou e muitas vezes confundiu luteranos sofisticados. Enquanto no Harlem, ele comprou dezenas de gravações de espirituais afro-americanos e jogou-os incessantemente para as classes e grupos de jovens que ele estava envolvido. A combinação tipicamente africana-americana de rigor acadêmico e simplicidade evangélica que Bonhoeffer descobriu nos Estados Unidos frequentemente surpreendeu seu público.

Um dos estudantes de Berlim de Bonhoeffer recordou a franqueza e “simplicidade” com que Bonhoeffer “nos perguntou se amamos Jesus”. Aquele diferente Bonhoeffer foi quem mais tarde se manifestaria contra o racismo nazista e se tornaria o célebre autor de Creation and Fall , Life Together. , Discipulado, e Ética.

Se a tese básica que Williams apresenta no Black Jesus de Bonhoeffer resiste ao escrutínio, os cristãos americanos devem lutar com um paralelo espiritual próximo entre a “pureza racial dos Volks” dos nazistas e nossa obsessão (geralmente não falada) com a supremacia branca. Williams joga a luva com força surpreendente (surpreendente para leitores brancos, isto é):

A devoção do Volkish ao puro sangue alemão, com seus anseios étnicos, nacionalistas e imperialistas, era o equivalente alemão da humanidade normalizada da versão americana da supremacia branca. … Ver a sociedade a partir da perspectiva oculta do Harlem ajudou Bonhoeffer a reconhecer a supremacia branca na Alemanha e a vê-la como um problema cristão que poderia exigir uma ação política cristã. … Por ter sido exposto ao racismo americano a partir da perspectiva dos cristãos a quem foi submetido, Bonhoeffer estava equipado com uma visão profética que seus colegas brancos alemães na igreja e na academia não tinham.

E isso, em poucas palavras, é o motivo pelo qual Bonhoeffer foi capaz de ter empatia com os judeus, os sindicalistas, os ciganos e o restante das vítimas de Hitler: ele havia visto esse movimento antes.

Poderia Bonhoeffer ter entrado no doloroso sofrimento da Igreja Batista Abissínia e do Renascimento do Harlem se ele tivesse vindo de Birmingham para Nova York em vez de Bonn? Provavelmente não. E é por isso que o livro de Williams deveria nos abalar. Se ele está certo (e ele é), os cristãos americanos brancos (e a Igreja americana branca), em todas as suas manifestações teológicas e ideológicas, deixaram de perceber algo crítico. Não podemos capturar a poderosa simplicidade de Jesus, a menos que nos arrependamos de nossa dependência da supremacia branca em pano de saco e cinzas.

É possível uma coisa dessas? Em grande escala, provavelmente não. Mas pouco a pouco, aqui e ali, de vez em quando, o Jesus negro insinua seu caminho em nossas almas brancas. E se isso for verdade, há esperança.


Alan Bean é diretor executivo da Friends of Justice, uma aliança de membros da comunidade para defender a reforma da justiça criminal. Ele mora em Arlington, Texas.
Texto publicado originalmente em  https://baptistnews.com/article/the-african-american-roots-of-bonhoeffers-christianity/#.WtuZX9PwYkg