Direitos Humanos, Justiça, teologia

O racismo e a supremacia branca são “um problema cristão”

Heidi Schlumpf

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Em 1934, um grupo de cristãos na Alemanha nazista assinou seus nomes com a “Declaração de Barmen”, uma declaração que se opõe à ideologia nazista como antitética ao Evangelho. Oitenta anos depois, os cristãos nos Estados Unidos sentem a necessidade de fazer o mesmo.

Mais de 400 eticistas cristãos e outros teólogos assinaram ” Uma Declaração de Ética Cristã Sem Fronteiras sobre a Supremacia Branca e o Racismo “. Organizada por quatro professores de ética e datada de 14 de agosto, a declaração rejeita “a ideologia racista, antissemita, antimuçulmana e neonazista como um pecado contra Deus que divide a família humana criada à imagem de Deus”.

Os organizadores estavam particularmente preocupados – assim como os da Alemanha nazista – por aqueles envolvidos na supremacia branca e outros movimentos que também afirmam ser cristãos. “Essa é uma versão distorcida do cristianismo”, disse Tobias Winright, professor associado de ética em saúde na Universidade de St. Louis e fundador do grupo “Ethicists without Borders”, do Facebook, que organizou o comunicado.

Esta afirmação enfoca os eticistas cristãos “porque este é um problema cristão”, disse Winright.

“A supremacia branca e o racismo negam a dignidade de cada ser humano revelada pela Encarnação. O mal da supremacia branca e do racismo deve ser colocado frente a frente diante da figura de Jesus Cristo, que não pode ser confinado a nenhuma cultura ou nacionalidade, “a declaração diz.

A declaração conecta o anti-semitismo e o racismo ao nacionalismo, incluindo a doutrina da “Primeira América”, que chama de “erro pernicioso e idólatra” porque “insensatamente pede aos norte-americanos que substituam a adoração de Deus pela adoração da nação”.

“Queríamos fazer uma declaração realmente forte de que essas visões são heréticas para o evangelho cristão”, disse Anna Floerke Scheid, professora associada de teologia da Duquesne University, em Pittsburgh, uma das organizadoras.

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Floerke Scheid e outros ficaram desapontados com a resposta morna do clero e de outros líderes religiosos na sequência de eventos racistas, mesmo antes de Charlottesville. “Há uma separação entre o que está acontecendo nas ruas e o que está acontecendo nas igrejas”, disse ela.

Mesmo a reação dos líderes católicos à violência em Charlottesville não combinou com a força do ensino anterior da Igreja contra o racismo eo anti-semitismo, disse Matthew Tapie, diretor do Centro de Estudos Judaico-Católicos da Universidade St. Leo, na Flórida, e outro organizador a declaração. “Parece-me que estamos em uma situação de emergência e precisamos de uma denúncia mais forte”, disse ele.

A declaração sugere respostas ativas contra o racismo e a supremacia branca de todos os cristãos, mas especialmente dos pastores, incluindo a oração, trabalhando através das tradições religiosas, participando de protestos e desobediência civil, e engajando-se em ação política.

Uma pesquisa informal sobre mídia social em 13 de agosto sobre se as igrejas abordaram os eventos em Charlottesville ou o racismo em geral constatou que poucas participaram, especialmente entre paróquias predominantemente brancas, segundo MT Dávila, professor associado de ética cristã na Escola Teológica Andover Newton. , outro organizador.
Dávila espera que a declaração – assinada por cristãos de um amplo espectro denominacional e até mesmo ideológico – dê aos pastores “permissão para pregar uma palavra que seja fiel ao Evangelho e que condene o racismo pela violação do bem comum e da dignidade humana”.
Nas igrejas negras, no entanto, Charlottesville estava na mente de todos.
“É simplesmente mais uma indicação de algo que já conhecemos”, disse Reggie Williams, professor associado de ética cristã no McCormick Theological Seminary, em Chicago, que assinou o comunicado.
Ele disse que a forte linguagem da declaração “coloca no papel o que significa ser moralmente fiel a Cristo neste momento”.
Mas outros signatários e organizadores esperam que isso aconteça mais do que isso.
“Precisamos ser muito mais ativos e proativos em falar contra o racismo em todas as suas formas – individual e estrutural”, disse Floerke Scheid. “Se não podemos fazer isso, seremos irrelevantes como igreja.”

Heidi Schlumpf é correspondente nacional da NCR. Texto publicado originalmente em https://www.ncronline.org/news/justice/christian-ethicists-racism-white-supremacy-are-christian-problem

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Hstória, Justiça, Política

As próprias pedras Gritaram – relato de tortura de Frei Tito

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Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, então com 24 anos. Dominicano. O texto redigido por ele mesmo na prisão. Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a “Operação Bandeirantes”, OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do “pau-de-arara”. O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. “Vai ter que falar senão só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na “cadeira do dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao “pau-de-arara”. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
“Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. “Quando venho para a OB – disse – deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede… Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo “não” que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Eram três militares na sala. Um deles gritou: “Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)”. Quando respondi: “não sei” recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?”. Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que a “Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estômago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara”. Mas o capitão Albernaz objetou: “não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis”. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”.
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos”. Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a “gillete” para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos”. No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.
“Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970
Cidadania, Direitos Humanos, Hstória, igreja, Justiça

Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil

Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil (1963)

9 MINISTROS BATISTAS ENSINO LAICO

 

A Ordem dos Ministros Batistas do Brasil, entidade que congrega os pastores que servem às Igrejas da Convenção Batista Brasileira, em sua última Assembléia Geral, realizada na cidade de Vitória, Estado do Espírito Santo, resolveu apresentar à Nação Brasileira e à Denominação Batista em particular, o seguinte:

Reconhecemos ser um privilégio dos batistas brasileiros a infindável responsabilidade de contribuir não somente para a solução dos problemas que no momento assoberbam o nosso povo, como também para a determinação do seu destino histórico. Não o afirmamos apenas porque sejamos uma parcela apreciável desse mesmo povo, mas porque entendemos ser essa participação inerente à missão de “sal da terra e luz do mundo’, que o Senhor mesmo nos outorgou.

Nossas preocupações estão em consonância não só com as dos profetas bíblicos, que se constituíram nos intérpretes da vontade de Deus para os seus povos nos momentos de maior gravidade de sua história, como também do próprio Cristo, que além de partilhar, quando da encarnação, na sua inteireza a condição humana, afirmou ser o seu Evangelho uma resposta satisfatória a todos os anseios da criatura, e uma solução cabal para todos os problemas da humanidade (Lucas 4:16-21).

Entenderam-no assim também Guilherme Carey, o pai das missões modernas e corajoso batalhador contra o sistema das castas na Índia; Roger Williams, o pioneiro da liberdade religiosa em nosso continente; Walter Rauschenbush, o arauto das implicações sociais do Evangelho; Martin Luther King Jr., o campeão da luta pelos direitos da minoria negra oprimida, e tantos outros batistas ilustres através dos tempos.

Resulta daí não só a legitimidade, mas também a necessidade de os membros das nossas igrejas assumirem as suas responsabilidades como cidadãos, participando efetivamente na vida política do país e integrando-se nas organizações de classe, a fim de influírem nas decisões de que resulta a configuração do nosso destino como nação.

Os direitos da pessoa humana

Ainda que reconheçamos a importância e a significação das instituições, acreditamos ser o homem o fulcro de nossas preocupações, porquanto “criado à imagem e semelhança de Deus”. Por isso entendemos estar a legitimidade de qualquer regime, sistema ou instituição condicionada na medida em que possibilita à criatura a plena realização da sua humanidade.

Esta convicção nos fez, desde sempre, intransigentes defensores da liberdade em todas as suas formas de expressão — liberdade de consciência, de religião, de imprensa, de associação, de locomoção, etc., bem como da autodeterminação dos povos desde que livremente manifesta — como condição imprescindível à vida humana.

Por corresponderem à nossa concepção de direitos e deveres da pessoa humana, insistimos em que os princípios a esse respeito consagrados na constituição Federal de 1946, na carta das Nações Unidas e na Declaração dos Direitos do Homem, sejam universalmente aplicados, de sorte a serem banidos da face da terra a exploração do homem pelo homem ou pelo Estado, em qualquer das suas formas, e os totalitarismos de toda espécie, assegurando-se a prática da verdadeira democracia.

Igreja e Estado

Inspirados no preceito bíblico “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt. 22:21), temos propugnado pela existência de igrejas livres num estado livre, preconizando a delimitação inteligente e respeitosa das esferas de responsabilidade e ação da Igreja e do Estado, sem interferências abusivas ou relações aviltantes de dependência, embora permitindo a cooperação construtiva entre ambos. Por isso temos repugnado a concessão de privilégios ou favores financeiros destinados ao sustento e promoção do culto de quaisquer grupos religiosos.

Assim é que, entendendo ser o ensino religioso uma atribuição específica dos lares e da Igreja, consideramos imperiosa a reforma do dispositivo constitucional que estabelece o ensino religioso nas escolas mantidas pelo governo, que deverão continuar leigas, assim como é leigo o Estado que as mantém, para que não se propicie a criação de um clima de intolerância e de preconceito religioso em nossas instituições de ensino público.

Justiça Social

Embora nos regozijemos pelas conquistas sociais do povo brasileiro, reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um re-exame corajoso, objetivo e despreconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua reestruturação em moldes que possibilitem o atendimento das justas aspirações e necessidades do povo.

Essa necessidade ressalta da verificação da ineficiência dos institutos assistenciais do Estado, que transformam num favor concedido a custo, direitos líquidos dos trabalhadores; da irracional aplicação dos recursos públicos, que deveriam antes se destinar, mais liberalmente, aos ministérios da Saúde, Educação e Agricultura, para a solução de problemas sociais angustiantes; da sobrevivência de regimes feudais de propriedade e exploração da terra; da generalizada pobreza das populações carecentes do alimento indispensável à sobrevivência; da injustiça na distribuição das riquezas e da utilização destas para o cerceamento das liberdades essenciais; da inadequada exploração das nossas riquezas naturais, cujo aproveitamento não só deveríamos intensificar, como fazer revestir-se de significação social; do crescente empobrecimento do patrimônio nacional pela remessa para o exterior dos lucros extraordinários auferidos em nosso país; da corrupção que tem campeado nos pleitos eleitorais, na prática policial (quer preventiva, quer corretiva), na previdência social, no preenchimento de cargos públicos, na aplicação dos recursos sindicais, etc.

São ainda evidências daquela afirmação o tratamento meramente policial dado aos movimentos populares da cidade e do campo, que mereceriam ser antes objetiva e carinhosamente estudados para que viessem a ser orientados construtivamente para o bem geral, através do atendimento das suas justas reivindicações; como também aos movimentos de greve, que, se muitas vezes desvirtuados, se constituem, entretanto, num instrumento legítimo de reivindicação social e de preservação dos direitos dos trabalhadores, e que deveriam, por isso mesmo, ser objeto de uma cuidadosa regulamentação.

Embora afirmemos ser a renovação do homem, mediante a transformação da personalidade, operada por Jesus Cristo, o fundamento básico sobre que terá de se alicerçar uma sociedade realmente nova, propugnamos também pela realização de reformas de base na vida nacional, de sorte a possibilitar à criatura a concretização de seus legítimos anseios terrenos. Por isso preconizamos a promoção urgente de reformas tais como: a) reforma agrária, que venha atender às reivindicações do homem do campo explorado; b)reforma eleitoral, que venha liquidar as circunstâncias que possibilitam e estimulam os nossos maus costumes políticos; c) reforma administrativa, que ponha termo ao nepotismo, ao filhotismo e à ineficiência tão generalizada quanto onerosa dos serviços públicos; d) reforma da previdência social, que venha pôr em funcionamento as nossas leis sociais com o pleno reconhecimento e o efetivo atendimento dos direitos dos que trabalham.

Recomendação final

No cumprimento, pois, da missão profética que recebemos do Senhor, concitamos o Povo Batista Brasileiro a integrar-se cada vez mais no processo histórico da nossa nacionalidade, contribuindo para que o futuro corresponda aos desígnios de Deus para a nossa Pátria. Debrucemo-nos, portanto, sobre a realidade brasileira, procurando compreender-lhe os problemas, sentir-lhe as angústias, partilhando as suas dores. Busquemos nas Escrituras as soluções divinas para os problemas do homem. E, corajosamente, desfraldemos, em nome do Cristo, a bandeira da redenção total da criatura. Da redenção temporal e eterna do povo brasileiro!

Pela Ordem dos Ministros Batistas do Brasil, a Diretoria:

Presidente – José dos Reis Pereira
1o Vice-Presidente – José Lins de Albuquerque
2o Vice-Presidente – Hélcio da Silva Lessa
Secretário-Geral – Tiago Nunes Lima
1o Secretário – Irland Pereira de Azevedo
2o Secretário – José dos Santos Filho
Tesoureiro – Otávio Felipe Rosa
Bibliotecário – Tércio Gomes Cunha
Procurador – David Malta Nascimento”.

Nota: Manifesto dos Ministros Batistas do Brasil, O Jornal Batista, Ano LXIII, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1963, No. 37, primeira página.

Espiritualidade, Justiça, Oração

Jesus com fome e sede de Justiça

Por Henri Nouwen

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Jesus, o Bem-aventurado Deus de Deus, tem fome e sede de retidão. Ele aborrece a injustiça. Ele resiste a quem procura reunir riqueza e influenciar a opressão e a exploração. Todo o seu ser anseia por as pessoas se tratarem como irmãos e
irmãs, filhos e filhas do mesmo Deus.
Com fervor, ele proclama que o caminho para o Reino não é encontrado ao dizer muitas orações ou oferecer muitos sacrifícios, mas ao alimentar os famintos, vestir os nus e visitar os doentes e os prisioneiros (ver Mateus 25: 31-46). Ele anseia por um mundo justo. Ele quer que vivamos com a mesma fome e sede.

Espiritualidade, Justiça, Missão Integral, teologia

Lyndon de Araújo: “Temos que abandonar a lógica da conquista como missão”

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Por Lyndon de Araújo Santos* 

Equidade – O que significa isto? Qual a relevância deste conceito para a Igreja de Cristo? Temos sido fieis na busca pela equidade enquanto cristãos? 

Equidade – Não falamos de algo que esteja distante de nós na América Latina e no Brasil. A partir da situação e do contexto em que nos encontramos, quero falar sobre equidade começando com 3 inflexões:

1 – O lugar de onde falamos: Sabemos que nos encontramos em espaços onde existem agudos déficits históricos e sociais em todas as esferas. Nos encontramos sob arraigadas estruturas promovedoras da desigualdade. Somos o resultado de uma sociedade formada pelas lógicas da invasão, exploração da sociedade e da escravidão. Somos síntese desses vetores e forças históricas, sociais e religiosas. O cristianismo foi um elemento que fez parte deste projeto. Organicamente inserido e cúmplice deste projeto, mas em vários momentos se contrapondo a ele.

Somos resultado de uma missão que obedeceu à lógica da conquista. E se pensamos em equidade como missão da igreja, temos que abandonar a lógica da conquista como missão. Se a equidade é o centro da missão, temos que renunciar à qualquer lógica da conquista.

2 – A igreja da qual falamos:

3 perspectivas:

  • igreja vista de baixo pra cima
  • igreja na sua horizontalidade
  • igreja na sua capilaridade social

Se eu pensar na igreja na lógica da conquista eu não posso chegar na equidade. Se falamos de equidade como missão da igreja, não entendemos ser possível nas suas estruturas que se comprometem com outras estruturas de poder. A igreja corpo como contraponto à igreja estrutura de poder e como lugar de comunidade integral.

3 – O tempo do qual falamos: a concepção de que a equidade não é possível para todos. Isso está no germe do pensamento moderno.

Por outro lado, se existe desigualdade, ela é responsabilidade dos que não conseguem ser iguais. Se a equidade só pode ser experimentada por um segmento social, deixa de ser igualdade, resultando portanto em uma falácia.

Nos encontramos diante de um paradigma que predominou durante o “infeliz século XX”: todas as promessas deste século desembocam frustradas no início do século XXI. Se o mundo está desigual, sobretudo na América Latina, podemos pensar na nossa condição. Liberalismo.

Os sentidos e as dimensões da equidade:

Político, social e teológico. A igualdade e a equidade são princípios fundamentais que norteiam as lutas por uma sociedade melhor. Os sentidos da palavra equidade que se relacionam com igualdade são vários e as dimensões dessa palavra são pelo menos três à igualdade, reparação, simetria, imparcialidade, justiça, justa distribuição, equilíbrio, imparcialidade e compensação.

Ela agrega as dimensões:

Jurídica – lei e sua aplicação.

Econômica – compreende a relação entre a produção de víveres, de bens e riquezas extraídas da natureza pela instrumentalização da tecnologia e a sua distribuição suficiente ou justa para a satisfação de necessidades materiais. A maneira como essa distribuição é concentrada pode gerar equidade ou iniquidade. Essa dimensão econômica exige a administração da casa. Temos que distribuir conforme as necessidades numa relação de equidade que pressupõe distribuição, eficiência e satisfação dessas necessidades.

Relacional – essas relações interpessoais são mediadas por conflitos, dramas e conciliações em que há equidade ou não.

Essas dimensões não se separam, estão fundidas no mundo. A questão ambiental tem dimensões jurídicas, econômicas e relacionais. Esgotamento dos recursos naturais explorados segundo a lógica que reduz as dimensões humanas a uma mera mercadoria: mercantilização da vida. O que vemos nos últimos tempos é o esvaziamento dessa dignidade em que trabalhador, o seu trabalho e o produto do seu trabalho perdem a condição de dignidade.

Como igreja, qual o nosso lugar diante dessa coisificação do humano e da natureza? Ética da solidariedade: está presente na Lei Mosaica, nos profetas, na literatura de sabedoria, na pregação e exemplo do Senhor Jesus e na pregação apostólica. Aquele que ama o seu próximo cumpre toda a lei, logo pratica a equidade. Se buscamos a justiça do Reino, a equidade está nela.

Na história da igreja isto está na pregação patrística. Os movimentos monásticos, com as abençoadas heresias e ordens mendicantes medievais que foram movimentos de protestos social, e também no pensamento reformado.

Cristianismo primitivo – o etos do amor ao próximo e a renúncia ao status à isso gerou uma experiência de equidade incomum no mundo antigo. Essa experiência das igrejas macedônicas, da Acaia e de Corinto foi resultado da Graça de Deus.

A ética da solidariedade só é possível em uma relação de horizontalidade. A coragem do amor radical ao próximo e de renúncia ao status nós precisamos reaver e retomar.

Alguns norteamentos para a missão:

A equidade como princípio, valor e prática exemplificada na encarnação de Jesus e da experiência da abundante graça comunitária. A ação generosa e voluntária resulta da graça, a propriedade privada se torna relativa ante a proporcionalidade da contribuição de acordo com as posses, “nem alívio para uns, nem sobrecarga para outros”, “para que haja igualdade”.

Citando John Stott:

  • Deus tem provido o suficiente para satisfazer as necessidades de todos;
  • Toda marca da disparidade entre abundância e carência e pobreza lhe é inaceitável;
  • Quando surge uma situação de séria disparidade, deve ser corrigida mediante um ajuste com o fim de lograr a igualdade ou a justiça;
  • A motivação de buscar a igualdade é o amor.

Uma agenda da missão:

Construir as possibilidades de uma ética da solidariedade.

Dizer que a concentração de poder religioso equivale à concentração de renda, à iniquidade.

Denunciar a falácia da equidade desde a lógica do capital.

Anunciar a equidade como vontade de Deus.

Praticar a equidade na dinâmica social das igrejas e comunidades.

Agregar-se a movimentos sociais que se propõem à construção da equidade em todas as dimensões.

 


* Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luís, MA. Equidade foi um dos três eixos temáticos que nortearam as palestras e exposições bíblicas do Congresso Caminhos da Missão: A Igreja e seu tempo, realizado entre os dias 26 e 29 de junho de 2017 em Vitória (ES). 

Texto publicado originalmente em http://tearfundbrasil.org/lyndon-de-araujo-temos-que-abandonar-logica-da-conquista-como-missao/

Cidadania, Justiça, Opinião, Política

Bernie Sanders: é hora de nova rebeldia global

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Às vésperas do Fórum de Davos, ex-candidato rebelde à presidência dos EUA propõe um movimento articulado para enfrentar, em todo o mundo, os poderosos, os bilionários e a desigualdade estrutural

Eis onde estamos como planeta em 2018: depois de todas as guerras, revoluções e grandes encontros  internacionais nos últimos 100 anos, vivemos em um mundo onde um pequeno punhado de indivíduos incrivelmente ricos exercem níveis desproporcionais de controle sobre a vida econômica e política da comunidade global.

Difícil de compreender, o fato é que as seis pessoas mais ricas da Terra agora possuem mais riqueza do que a metade mais empobrecidada população mundial — 3,7 bilhões de pessoas. Além disso, o top 1% tem agora mais dinheiro do que os 99% de baixo. Enquanto os bilionários exibem sua opulência, quase uma em cada sete pessoas luta para sobreviver com menos de US$ 1,25 [algo como R$ 4] por dia e – horrivelmente – cerca de 29 mil crianças morrem diariamente de causas totalmente evitáveis, como diarreia, malária e pneumonia.

Ao mesmo tempo, em todo o mundo, elites corruptas, oligarcas e monarquias anacrônicas gastam bilhões nas mais absurdas extravagâncias. O Sultão do Brunei possui cerca de 500 Rolls-Royces e vive em um dos maiores palácios do mundo, um prédio com 1.788 quartos, avaliado em US$ 350 milhões. No Oriente Médio, que possui cinco dos 10 monarcas mais ricos do mundo, a jovem realeza circula pelo jet set ao redor do mundo, enquanto a região sofre a maior taxa de desemprego entre os jovens no mundo e pelo menos 29 milhões de crianças vivem na pobreza, sem acesso a habitação digna, água potável ou alimentos nutritivos. Além disso, enquanto centenas de milhões de pessoas vivem em condições de vida indignas, os comerciantes de armas do mundo enriquecem cada vez mais, com os gastos governamentais de trilhões de dólares em armas.

Nos Estados Unidos, Jeff Bezos — fundador da Amazon, e atualmente a pessoa mais rica do mundo — tem um patrimônio líquido de mais de US$ 100 bilhões. Ele possui pelo menos quatro mansões que, em conjunto, valem várias dezenas de milhões de dólares. Como se isso não bastasse, está gastando US$ 42 milhões na construção de um relógio dentro de uma montanha no Texas, que supostamente funcionará por 10.000 anos. Mas, nos armazéns e escritórios da Amazon em todo o país, seus funcionários usualmente trabalham em jornadas longas e extenuantes e ganham salários tão baixos que precisam crucialmente do Medicaid, de cupons de alimentos e subsídios públicos para habitação, pagos pelos contribuintes dos EUA.

Não só isso: neste momento de riqueza concentrada e desigualdade de renda, pessoas em todo o mundo estão perdendo a fé na democracia. Eles percebem cada vez mais que a economia global foi manipulada para favorecer os que estão no topo à custa de todos os demais — e estão revoltados.

Milhões de pessoas estão trabalhando mais horas por salários mais baixos do que há 40 anos, tanto nos Estados Unidos quanto em muitos outros países. Elas olham à frente e sentem-se indefesas diante de poucos poderosos que compram eleições e uma elite política e econômica que se torna mais rica, enquanto futuro de seus próprios filhos torna-se cada dia mais incerto.

Em meio a toda essa disparidade econômica, o mundo está testemunhando um aumento alarmante do autoritarismo e do extremismo de direita — que alimenta, explora e amplifica os ressentimentos dos que ficaram para trás e inflamam o ódio étnico e racial.

Agora, mais do que nunca, aqueles que acreditamos na democracia e em governos progressistas devemos mobilizar as pessoas de baixa renda e trabalhadoras em todo o mundo para uma agenda que atenda suas necessidades. Em vez de ódio e divisão, devemos oferecer uma mensagem de esperança e solidariedade. Devemos desenvolver um movimento internacional que rejeite a ganância e a ideologia da classe bilionária e conduza-nos a um mundo de justiça econômica, social e ambiental. Isso será uma luta fácil? Certamente não. Mas é uma luta que não podemos evitar. Os riscos ao futuro são altos demais.

Como o Papa Francisco observou corretamente em um discurso no Vaticano em 2013: “Criamos novos ídolos; a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa imagem no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem propósito verdadeiramente humanos.” Ele continuou: “Hoje, tudo está sob as leis da competição e da sobrevivência dos mais aptos enquanto os poderosos se alimentam dos sem poder. Como consequência, milhões de pessoas encontram-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem meios de escapar”.

Um novo movimento progressista internacional deve comprometer-se a enfrentar a desigualdade estrutural tanto entre as nações como em seu interior. Tal movimento deve superar o “culto do dinheiro” e a “sobrevivência dos mais aptos”, como advertiu o Papa. Deve apoiar políticas nacionais e internacionais destinadas a aumentar o nível de vida das pessoas pobres e da classe trabalhadora — desde o pleno emprego e salário digno até o ensino superior e saúde universais e acordos de comércio justo. Além disso, devemos controlar o poder corporativo e interromper a destruição ambiental do nosso planeta que tem resultado nas mudanças climáticas.

Este é apenas um exemplo do que precisamos fazer: apenas alguns anos atrás, a Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network) estimou que as pessoas mais ricas e as maiores corporações em todo o mundo esconderam entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões em paraísos fiscais, para evitar o pagamento de sua justa contribuição em impostos. Se trabalharmos juntos para eliminar o abuso tributário offshore, a nova receita que será gerada poderá pôr fim à fome global, criar centenas de milhões de novos empregos e reduzir substancialmente a concentração de renda e a desigualdade. Tais recursos poderão ser usados para promover de forma acelerada uma agricultura sustentável e para acelerar a transição de nosso sistema de energia dos combustíveis fósseis e para as fontes de energia renováveis.

Rejeitar a ganância de Wall Street, o poder das gigantescas corporações multinacionais e a influência da classe dos bilionários globais não é apenas a coisa certa a fazer — é um imperativo geopolítico estratégico. Pesquisa realizada pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostrou que a percepção dos cidadãos sobre a desigualdade, a corrupção e a exclusão estão entre os indicadores mais consistentes para definir se as comunidades apoiarão o extremismo de direita e os grupos violentos. Quando as pessoas sentem que as cartas estão  empilhadas na mesa contra si e não veem caminho para o recurso legítimo, tornam-se mais propensas a recorrer a soluções prejudiciais a elas próprias e que apenas exacerbam o problema.

Este é um momento crucial na história do mundo. Com a explosão da tecnologia avançada e os novos paradigmas que ela permitiu, agora temos a capacidade de aumentar substancialmente a riqueza global de forma justa. Os meios estão à disposição para eliminar a pobreza, aumentar a expectativa de vida e criar um sistema de energia global barato e não poluente.

Isto é o que podemos fazer se tivermos a coragem de nos unir e confrontar os poderosos que querem cada vez mais para si mesmos. Isto é o que devemos fazer pelo bem de nossos filhos, netos e o futuro do nosso planeta.

Tradução: Mauro Lopes | Publicado originalmente no “Outras Palavras”

Espiritualidade, Justiça, Oração, Política

O “Pai-Nosso” e a conjuntura brasileira

Maurício Abdalla

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No século I, na Palestina, o domínio romano extorquia os agricultores por meio de pesados impostos. Adicionalmente, na região camponesa da Galileia, o reinado perdulário de Herodes Antipas acrescentava outros tributos que sobrecarregavam ainda mais os que viviam da terra – que ainda tinham que pagar o imposto do Templo para os governantes judeus.

Como os impostos levavam a maior parte da colheita (principalmente nos períodos das grandes obras de Antipas), sobrava pouco para o sustento da família e para estoque para a próxima semeadura. Os agricultores eram, então, obrigados a recorrer a empréstimos. Os ricos proprietários de terra, que sustentavam o poder judaico e se aproveitavam de maneira submissa da dominação romana, passaram a ganhar ainda mais com os juros dos empréstimos e, principalmente, com o confisco das terras dos que não conseguiam saldar as pesadas dívidas. Esses eram os saduceus, que orbitavam o Templo, sede do poder judaico, e apresentavam-se como líderes religiosos e da tradição.

Um jovem líder daquela época, de origem camponesa (da Galileia), ao ensinar em público como se deve dirigir a Deus, disse: “Diga a Deus que perdoe as suas dívidas do mesmo jeito que você perdoa a de seus devedores…” Esse era Jesus.

Como essas palavras devem ter soado aos ouvidos religiosos dos saduceus, cuja riqueza sustentava-se e crescia justamente na cobrança, e não no perdão, das dívidas? Era como forçá-los a dizer “Deus, condene-nos”.

Com isso, Jesus expressava também a condenação ao sistema que levava ao endividamento e ao consequente enriquecimento de uns à custa do empobrecimento de muitos. Não se preocupou em fazer referência ao “compromisso de honra” do tomador do empréstimo com o seu pagamento. Preferiu chamar à consciência para o sentido ético-social de uma cobrança que tinha em sua raiz original um sistema de dominação e injustiça. Tem coragem de pedir a Deus que faça com você a mesma coisa que você faz com os outros? Se não, algo está errado, independente das justificativas.

Traduzida na fórmula de oração católica do “Pai-Nosso” por “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” e mantida na tradição protestante como “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, a oração de Jesus contém uma crítica social e econômica fulminante, inseparável da sua espiritualidade e só compreensível dentro de seu contexto.

O sentido original da oração foi um dos tantos fatores que levaram o jovem da Galileia a sofrer o castigo que os romanos reservavam aos contestadores da ordem: o assassinato político na cruz.

A retirada do contexto e o esvaziamento do sentido crítico das palavras de Jesus é a única coisa que permite que muitos sejam a favor da ordem atual e, paradoxalmente, se digam cristãos.

Com as riquezas do Brasil sendo entregues à rapina de banqueiros e empresários, o empobrecimento da população, a destruição do patrimônio e dos serviços públicos em nome de uma dívida não auditada, insolvível e fruto de um sistema injusto, onde você acha que Jesus estaria? No Facebook defendendo as privatizações, a destruição das leis trabalhistas e da previdência e o engessamento do orçamento primário em nome de uma ideologia liberal de comentadores de TV, ou com o chicote na mão liderando uma invasão ao Templo, chamando Herodes de raposa e dizendo que o diabo é a Legião (nome das tropas de ocupação romana)?

Pense nisso na próxima vez que for orar o “Pai-nosso”.

 

Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

(Texto publicado originalmente no site do Movimento Nacional de Fé e Política).