Direitos Humanos, Espiritualidade, teologia

Quem é o meu próximo? Uma pergunta que não se faz…

Texto de Carlos Mesters publicado originalmente pelo Observatório da Evangelização

O porquê da perguntado doutorcross-jesus-bible-god-161034.jpeg

Quem é o meu próximo? Foi o doutor da Lei que fez a pergunta. Ele a fez, foi mais para justificar-se (Lc 10,29). Diante da reação de Jesus à sua pergunta anterior, ele ficou com vergonha. Perguntara: Mestre, o que devo fazer para obter a vida eterna? (Lc 10, 25). E Jesus, em vez de responder diretamente, disse: O que está escrito na lei? O que você lê ali? (Lc 10,26). Foi como se dissesse: Você, então, não sabe uma coisa tão evidente, você que se diz conhecedor da lei! E, querendo ou não, ele mesmo teve que dar a resposta: amar a Deus e amar ao próximo (Lc 10,27). Perguntara uma coisa já sabida de todos. Parecia uma desonestidade da sua parte. Por isso, para justificar-se, tornou a perguntar: E quem é o meu próximo?.

Mas não foi só para justificar-se e para salvar a sua reputação de doutor da Lei. Para ele, doutor da Lei, aquela pergunta era importante mesmo. Já imaginou: se o pagão não fosse próximo, se o romano, o pobre, o operário, a empregada em casa, não caíssem na categoria de próximo, isso faria uma diferença muito grande e tiraria da vida uma grande preocupação. Estaria livre de prestar-Ihes um serviço por amor. A miséria do mundo e a injustiça generalizada já não seriam uma acusação contra ele. Passaria tranqüilo ao lado dos pobres e das favelas, sem que a consciência lhe mordesse e lhe fizesse aqueles apelos incômodos. Pois a Lei, isto é, Deus, mandava amar somente os próximos, e aquela gente não era próximo. Já não haveria motivo para preocupar-se tanto. Saber direitinho quem era o próximo daria mais tranqüilidade. Realmente, para ele, o doutor, aquilo era uma pergunta muito importante, mas muito importante mesmo.

A resposta de Jesus

Jesus respondeu, mas respondeu a seu modo, como sempre, por meio de um exemplo tirado da vida. Tais exemplos ou histórias falam mesmo a quem não quer ouvir, pois da vida todos entendem ao menos alguma coisa. Jesus falou de um homem que desceu de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30), uns vinte quilômetros de viagem, pelo deserto perigoso de Judá, cheio de bandidos e ladrões, fugidos da polícia, e de subversivos e guerrilheiros, dispostos a matarem qualquer romano que passasse por lá. Esse homem passou por lá, e aconteceu o que se podia esperar. Caiu na mão de ladrões que o roubaram e o deixaram meio morto, ao lado da estrada, de tanta pancada que deram nele. Fugiram com o dinheiro (Lc 10,30). Quem sabe, naqueles dias mesmo tivesse ocorrido um assalto desse tipo. Estaria ainda bem vivo na lembrança de todos. Nada mais eficiente do que fazer um sermão com fatos da vida.

Passa um sacerdote no local onde agonizava a vítima. Era o doutor da Lei, passando ao lado da miséria do povo, agonizante, devido às feridas, feitas pela sociedade sem amor. O sacerdote era alguém que estava por dentro das coisas da religião, conhecia teologia, sabia situar-se, com a sua fé, neste mundo complicado. Chega lá olha e percebe o fulano indefeso que necessitava de ajuda urgente. Mas, na história que Jesus estava contando, o sacerdote olhou e passou, desviando para o outro lado da estrada. Deixou o homem ali. Não ajudou. Era o doutor da lei, passando ao lado da miséria do mundo e raciocinando consigo mesmo: Aquela gente não cai dentro da categoria de próximo. Portanto, não tenho nenhuma obrigação para com ela. Deus, aqui, nada me pede. Posso passar tranqüilo, sem correr o risco de perder a recompensa que Ele prometeu àqueles que observam fielmente a sua Lei. Estou dentro da Lei. A Lei está do meu lado! O sacerdote passou, como o doutor passava pela vida, tranqüilo, sem que a consciência lhe acusasse. O doutor, porém, pelo que parece, já não andava de todo tranqüilo, pois, do contrário, não teria feito aquela pergunta. Alguma coisa, lá dentro dele, o devia estar incomodando.

Passa, em seguida, um levita, um sacerdote de segunda categoria (Lc 10,32). Seria como um sacristão de hoje, alguém que, como o sacerdote e o doutor, estava por dentro das coisas da religião. Sabia aplicar as distinções necessárias, para não se sentir angustiado, neste mundo tão confuso, com tantos apelos. Também ele chegou, olhou e passou, pelo outro lado da estrada, tranqüilo com Deus e consigo. Não ajudou. O homem continuou estendido no chão, sangrando, meio morto. O mundo com a sua miséria continuava aí, sangrando pelas feridas aplicadas pela falta de justiça e não curadas por falta de amor entre os homens. E eram precisamente os que professavam sua fé no Deus justo e bondoso, os que deveriam protestar, reagir, ajudar, esses nada faziam: o doutor, o sacerdote, o levita. A esses, o outro não importava nem um pouco. Importava ter a consciência tranqüila, juridicamente tranqüila.

Chega um samaritano (Lc 10, 33). Na opinião do doutor, um samaritano era um energúmeno, um herege, um renegado, um bandido, um comunista ateu. O que é que esse samaritano vinha a fazer na história que Jesus estava contando? Até agora o doutor pôde segui-lo perfeitamente. Identificou-se com o sacerdote e o levita. Gente direita. Mas agora? Onde é que esse Jesus queria chegar? O samaritano chega, olha, pára, fica com dó, desce do cavalo, se aproxima, aplica curativo, joga azeite e vinho nas feridas, coloca o homem no seu próprio cavalo, vai a pé ao lado dele, leva-o até à hospedaria, recomenda o caso ao dono, cuida dele, paga pelos gastos e deixa ainda o aviso: Cuide bem desse homem. Caso as despesas forem mais, eu, na volta, pagarei tudo (Lc 10, 33-35). Depois continuou a sua viagem, também ele, tranqüilo. E para o samaritano, Deus não entrou, nem a lei. Foi o bom senso de um homem que não pode ver o outro sofrer.

A nova pergunta lançada por Jesus

Foi essa a história que Jesus contou como resposta àquela pergunta do doutor: Quem é o meu próximo? A história de um assalto. Não tirou nenhuma conclusão. Aliás, o doutor nem via como se poderia tirar alguma conclusãodessa história estranha. O que é que tudo isso tinha a ver com a pergunta que ele fizera? Também não era do interesse de Jesus dar uma resposta. Em vez de tirar uma conclusão e de dar uma resposta, ele prefere formular, ele por sua vez, uma nova pergunta.Perguntas incomodam mais do que respostas, porque forçam o outro a pensar: Jesus termina a história: Qual dos três lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Era, novamente, a vez do doutor de falar. A pergunta de Jesus era bem diferente daquela que o doutor tinha feito. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo?. Jesus nada respondeu, mas perguntou: Quem dos três se mostrou mais próximo? E o doutor teve que responder, querendo ou não: Aquele que usou de misericórdia para com ele (Lc 10, 37). De tanta raiva que tinha dos samaritanos, dos comunistas, nem sequer o identificou, e disse simplesmente: Aquele que usou de misericórdia. Então, Jesus encerra o assunto: Vai e faça o mesmo! (Lc 10,37). Terminou a conversa. O que será que o doutor pensou? Encontrou ou não encontrou uma resposta para a sua pergunta?

Jesus inverteu tudo. O doutor queria saber: Quem é o meu próximo? Queria ter um critério mais seguro para poder distinguir nos outros quem era e quem não era o seu próximo. Queria viver com a consciência mais tranqüila. Queria ficar livre do medo de não ter cumprido a Lei de Deus. Queria enquadrar os outros nos esquemas do seu próprio pensamento. Estava preocupado com o seu problema. Pouco ligava os outros. Mas, em vez de receber um critério nesse sentido, acaba de receber exatamente o contrário: um conselho de como ele mesmo devia fazer para tornar-se próximo dos outros. Não recebe um critério para poder julgar e classificar os outros, mas um estímulo para agir e aproximar-se dos outros. Caso, no futuro, não ajudasse o fulano caído nas mãos de ladrões e dele não se aproximasse, ele é que não estaria amando o próximo como Deus, isto é, a Lei, o mandava. Ele estaria fora da Lei. Em vez de tranqüilo, ficou mais angustiado ainda.

Pela história do assalto, Jesus fez saber que o erro do doutor estava na pergunta dele. Não se deve perguntar: Quem é o meu próximo? Isto é fuga! Isso é querer colocar em segurança a sua própria consciência, ao abrigo das exigências de Deus, que chegam até nós, em todas as esquinas da vida. Isso é querer obter mérito diante de Deus à custa do outro, identificado como próximo. O outro a quem se ama, por ser ele próximo, já não é amado por ele mesmo; mas é amado apenas porque eu, para poder salvar-me, devo amar o outro, o próximo. O outro, então, já não interessa mais. Já não interessa aquele que é amado nem aquele que não é amado. Interessa só eu que devo amar. Tal atitude é matar o amor na raiz. Faz cair o homem num egoísmo fechado, que já não permite abertura. A preocupação de saber quem é o próximo que deve ser amado, mata, na raiz, o amor ao próximo.

Próximo? Jesus o faz saber: isso depende de você mesmo. Se você se aproximar, você é que faz com que o outro fique mais próximo. Se você não se aproximar, ele jamais será o seu próximo. Não existe gente com rótulo na cabeça: Eu sou próximo! Então, vai depender de mim mesmo decidir quem é o meu próximo? Certo! E se eu não me aproximar dos outros, não terei próximo e não terei ninguém para amar e a Lei não se aplica a mim. Estarei dentro da Lei, sem fazer nada! Sem dúvida!, a aplicação e a execução da Lei fica a seu critério, fica a critério da sua aproximação do outro. Nesse caso, sobra ainda uma outra pergunta: Quando é que devo aproximar-me do outro? Leia a história do assalto que Jesus contou, veja quem cruza o seu caminho. Se ele precisar dos seus cuidados, então: Vá e faze o mesmo que o samaritano fez. Depende de sua generosidade e criatividade. Se esse outro é bom ou mau, ateu ou crente, protestante ou católico, comunista ou capitalista, terrorista ou cidadão cumpridor da Lei, samaritano ou herege, homossexual ou heterossexual, isso não vem ao caso. É homem? Precisa de você? Então, vá, e faça o mesmo. Em outro lugar, Jesus deu o seguinte critério: Tudo aquilo que você gostaria que o outro lhe fizesse, faça-o você a ele: isso é, em resumo, toda a Lei e os Profetas (Mt 7,12).

Conclusão

Próximo é todo aquele que cruzar o seu caminho, seja ele quem for, e do qual você se aproxima. Ou melhor, próximo não existe. Existe é você, com a sua obrigação de fazer-se próximo do outro. Fazer-se próximo, como o samaritano o fez, já é amar o outro como Jesus o quer. Com isso, tudo mudou totalmente.

A sociedade do doutor da Lei estava baseada no principio de que alguns são próximos, outros não. Hoje, na sociedade, existe a mesma coisa. Existem os que estão por dentro e os que estão por fora. Existem os que são aceitos, porque se adaptam aos critérios vigentes, e existem os que são marginalizados, porque não se adaptam ou porque não querem ou porque não podem. E todo mundo acha isso normal. Nós nos identificamos perfeitamente com o sacerdote e o levita da história do assalto. Se nós fôssemos hoje aplicar a parábola do bom samaritano, muita coisa iria mudar. Seria a revolução mais radical que jamais houve na história. Seria a coisa mais subversiva que a gente se possa imaginar. Somos todos como os doutores da Lei, querendo saber quem é o próximo. Tratar e conviver com alguém que a sociedade não aceita, que a Lei declara como não-próximo, isso poderia comprometer a nossa vida. E isso, nós não o queremos. Teremos que ouvir de novo que tais perguntas não se fazem. Seria querer esconder, debaixo da capa de uma suposta caridade, o apego que temos à segurança que a sociedade nos dá. Mas a miséria do mundo nos acusa, como ao doutor. Ninguém fica realmente tranqüilo. De vez em quando, incomodado pela realidade, todo o homem honesto faz como o doutor: quer saber quem é mesmo o próximo. E nesse sentido, a intranqüilidade da qual nasce a pergunta, essa é boa.

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1

O NEGRO NA BÍBLIA

Joaquim Beato
Am 9.7; Is 18.1-2

É num texto bíblico que tem sido procurada a justificação do escravismo e do racismo anti-negro, entre os cristãos (Gn9e20-27). Por isso, convém lançar um olhar, ainda que rápido, sobre a Bíblia, num sentido mais amplo, para uma verificação mais segura do testemunho das Escrituras Sagradas sobre o negro.

Temos na Bíblia o testemunho da presença do negro no quotidiano da sociedade israelita:

Um escravo negro (cuxita) foi o mensageiro escolhido para levar a Davi a notícia da morte de seu filho e adversário, Absalão (28m 18.21-32). Um escravo ou um mercenário negro, por ser um estrangeiro foi, talvez por isso, preferido pelo comandante Joab, para levar ao rei a trágica notícia.

2. Depois de ter lido em público os oráculos de denúncia e ameaça do profeta Jeremias, Baruque, seu secretário, foi intimado a comparecer diante dos grandes de Judá, levando-lhes o rolo (Jr 36.1- 26). O mensageiro enviado para convocar Baruque foi Jeudi, bisneto de um negro (cuxita; Jr 36.14; CNBB e NTLH).

3. Por sua mensagem, que aconselhava abertamente a rendição de Judá a Nabucodonosor, rei de Babilônia, Jeremias foi perseguido como traidor da pátria e entregue pelo rei Zedequias ao arbítrio dos príncipes. Estes o jogaram num poço em que não havia água, só havia lama (Jr 38.1-6). E o profeta se atolou na lama, correndo o perigo de se afogar e morrer. Aparece, então, um negro, um cuxita, cujo nome é dado como Êbed-Mélekh (literalmente, servo, isto é, ministro do rei). Ele vai ao rei, intercede por Jeremias e consegue permissão para salvar a vida do profeta. Esse negro é, portanto, alguém em alta posição na corte, tendo acesso direto ao rei, que o devia ter em alta consideração, e, por isso, atendeu seu pedido, embora fosse em desafio à decisão dos príncipes, diante dos quais o rei se confessara sem nenhum poder (Jr 38.3, 7-13). Essa foi uma ação tão notável que o etíope Êbed-Mélekh recebeu, em recompensa, um oráculo, por intermédio do próprio Jeremias, em que lhe era prometido livramento, quando acontecesse a destruição de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor. Sua vida seria poupada, porque ele confiara no Deus Eterno (Jr 39.15-19).

4. Duas coisas chamam a atenção no cabeçalho do livro de Sofonias (Sf 1.1). A primeira: é o único entre os profetas que tem seus antepassados citados até a quarta geração. Charles Taylor Jr. afirma: “A razão é, sem dúvida, porque o Ezequias mencionado é o rei daquele nome, que governara Judá de 715 a 687 a. C.,, A segunda: Sofonias é declarado filho do Negro (Cuxita). Podem ser formuladas duas hipóteses, para explicar esse caso:

a) uma dama nobre, neta do rei Ezequias, casara-se com um etíope, com um negro, que veio a ser o pai do profeta;
b) ou, então, seu pai, este sim, neto de Ezequias, recebera o nome de Cuxita (etíope), em homenagem ao Egito, pais com que Judá se aliara em oposição à Assíria. Qualquer que seja a hipótese adotada, torna-se evidente a alta conta em que eram tidos os cuxitas (etíopes, negros) pela família real de Judá.

5. Abraão foi o pai dos crentes, para judeus e cristãos, seu primeiro antepassado na fé (Gn 12..1-4a), que teve a honra de ser considerado um dos dois amigos de Deus, no AT (Antigo Testamento) (Is 41.8). Para os maometanos, ele foi um dos quatro grandes profetas: Ibraim, Musa, Issa e Maomé. Seu primeiro filho, Ismael, nasceu de sua relação com Agar, escrava egípcia, camita, portanto, negra, visto como Gn 10.6 e lCr 1.8 colocam Etiópia, Egito, Líbia e Canaã como filhos de Cam. Além disso, Deus sustentou, no deserto, essa mulher negra e seu filho e, mais ainda, concedeu-lhe o privilégio de uma teofania, isto é, apareceu diante dela e lhe falou (Gn 16..1-16; 17.23-27; 21.8-21). Através de Ismael, Agar se tornou a matriarca de numerosos povos beduínos que habitavam o sul da Palestina. E, segundo outras traduções, tornou-se uma ancestral de Maomé, o fundador do islamismo, tido como descendente de Ismael.

6. Da máxima importância, neste contexto, é uma tradução que envolve o próprio Moisés, o líder máximo do povo de Deus, no AT (Antigo Testamento), libertador do povo de Israel, em seu Êxodo do Egito, fundador da fé “javista.” Grande profeta, que também teve o privilégio de ser considerado, como Abraão, um amigo de Deus. Homem ímpar, de quem se diz: “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés” (Dt 34.10-12). Existem três diferentes traduções sobre a origem étnica de sua esposa. Uma atribui a ela origem midianita (Ex 2.16-22; 3.1; 4.24-26; 18.1; Nm 10.29). Outra, uma origem quenita (Jz 1.16; 4.11). A terceira fala de seu casamento com uma cuxita (etíope, negra; Nm 12.1).. Em todas as três, o grande libertador de Israel tem por esposa uma mulher estrangeira. A terceira tradução fala de uma esposa etíope, embora num texto que contém algumas dificuldades. Qualquer que seja a solução das dificuldades, o texto indica, de maneira suficientemente clara, que se trata de um casamento recente e, por conseguinte, a esposa mencionada não era Zípora. E mais, que a causa da rebelião de Minam foi a posição de Moisés como mediador único entre Deus e o povo (Nm 12.2). Conclui-se, então, que não há nenhuma recusa contra o fato, que é aceito, portanto, como normal, de que o fundador e legislador do povo de Israel, — o homem com quem Deus falava “face a face”, a quem colocara “como responsável” por todo o seu povo, — o fato de que Moisés tivesse desposado uma cuxita, uma mulher etíope, uma mulher negra.

7. Salomão foi, segundo a tradição, o mais sábio, o mais rico e o mais famoso dos reis de Israel, e construtor do primeiro templo de Jerusalém. Pois bem, entre as mais importantes raínhas-esposas de Salomão, estava a filha de um faraó da 2 ia dinastia, o faraó Shishak (cerca de 945-924 a.C.), pertencente a uma dinastia de famosos mercadores. Essa egípcia era a mais importante das raínhas-esposas. Seu pai tomou a cidade de Guézer dos canaanitas e deu-a como dote à filha, à esposa camita, à rainha-esposa negra de Salomão (1Rs 3.1; 9.16; 11.1).

II

Temos, na Bíblia, o testemunho sobre a imagem dos negros como pareciam aos olhos dos israelitas:

1. Os etíopes habitavam num país distante, remoto (Ez 29.10; Et1.1; 8.9), que ficava nos confins da terra (Sl 72.8-9).. No mundo da cultura grega, igualmente, Homero, no nono ou oitavo século a. C., dizia: “Posêidon, porém, partira para longe, em visita aos etíopes, que vivem nos confins da Terra…” (Odisséia 1.22-24).

2. Seu país era muito rico (Is 45.14a; Jó 28.19). Também no mundo da cultura grega, talvez um século depois dessa passagem bíblica, Heródoto fala de presentes enviados por Cambises, da Pérsia, a um rei dos etíopes: “um traje de púrpura, um colar de ouro, braceletes, um vaso de alabastro cheio de essência e um barril de vinho de palmeira”; e registra que só em relação ao invento do vinho o rei etíope admitiu a superioridade dos persas. Relata que, na prisão a que o soberano etíope levou, em visita, os emissários de Cambises, todos os presos estavam agrilhoados com correntes de ouro, pois, afirma Heródoto, entre os etíopes não era o ouro o metal mais raro e precioso, mas o cobre (História, livro m, cps. XX-XXIII).

3. Eram um povo guerreiro. Um povo forte e orgulhoso, de quem o mundo inteiro tinha medo (Is 18.2; cf. 2Cr 14.8). Esse capítulo de Isaías de Jerusalém (8o. século a..C.) fala-nos de mensageiros, de diplomatas etíopes, que tinham vindo tentar conseguir a participação de Judá numa rebelião geral contra a dominação dos assírios (Is 18.1-2a). A Etiópia estava no auge de seu poder. Em cerca de 725 a.C., Pianki empreendeu uma vitoriosa campanha militar para o norte, chegando até o mar Mediterrâneo, e unificou o Egito. Pianki tornara-se, assim, o primeiro conquistador estrangeiro desse pais. Por cerca de sessenta anos, na 25a. dinastia, os soberanos etíopes controlaram todo o vale do rio Nilo, até 663, quando os assírios, sob Assurbanipal, tiraram, finalmente, o Egito de sob seu poder. Um desses soberanos, Tiraká, parece ter até tentado proteger Ezequias, rei de Judá, contra a segunda invasão de Senaqueribe, rei da Assíria (2Rs 19.9; Is 37.9), entre 689 e 686 a.C. Um século mais tarde, ao prever a queda de Ninive (portanto, do império assírio), o profeta Naum cita a destruição de Tebas e, recordando o período áureo do poderio etíope, diz: “A Etiópia era a sua força.” (Na 3.9). Isaias, no oitavo século a.C., diz da Etiópia do seu tempo: «Povo forte e poderoso; um povo de quem o mundo inteiro tem medo” (Is 18,2df).

4. Mas é em Jr 13.23,– que alguns comentadores cristãos têm interpretado como se os antigos israelitas compartilhassem o moderno preconceito racial ocidental, que identifica o negro com o mal — onde pode, ao contrário, ser encontrada uma confirmação da fama guerreira dos etíopes: “Pode um etíope mudar a sua pele, ou um leopardo tirar as suas manchas?” Temos aqui um claro paralelismo, recurso estilístico dos mais importantes da poesia hebraica. Aqui ele é sinonímico, isto é, os termos do hemistíquio se eqüivalem, um por um, termo por termo:

pode um etíope / b. mudar a sua pele,

a’. ou um leopardo / b’. tirar as suas manchas?

A associação dos termos é bastante espontânea e significativa: Etíope, homem de uma nação poderosa e ameaçadora, que causava medo por seu valor militar; Leopardo: animal feroz, imagem da força, da rapidez no bote, da agressão violenta (Os 13.7; Is 11.6; Jr 5.6; Hab 1.8; Ct 4.8; De 7.6).

Não se trata, portanto, de preconceito racial. Quando muito, se trata de um ressentimento implícito, gerado pelas freqüentes situações de guerra, nas quais esse “povo de quem o mundo inteiro tem medo” aparecia, ou no papel de inimigo ou como guerreiros mercenários, lutando lado a lado com o Egito, apoiando seu imperialismo (1Rs 14.25s; 2Cr 14.8-14; Na 3.9; Jr 46.9; Ez 38.53). O etíope, o negro, temível guerreiro, é comparado, por uma livre associação de idéias, a um verdadeiro leopardo feroz. À imagem do etíope associava-se a imagem do leopardo, o que, nem de longe, se compara aos estereótipos que se ligam à imagem do negro, em nossa sociedade.

5. Os etíopes, os negros, eram vistos pelos olhos dos israelitas antigos, como homens belos. As palavras lisonjeiras da diplomacia com que Isaias se refere a eles (Is 18.2bcd) transpiram admiração. Falam de sua alta estatura, de sua pele lisa, lustrosa, suave. Também nisso concorre e concorda o mundo da cultura grega. Heródoto, já citado anteriormente, diz a respeito dos etíopes: “Dizem que os etíopes são, de todos os homens, os de maior estatura e de mais bela compleição física… Entre eles, o mais digno de usar a coroa é o que apresenta maior altura e força proporcional ao seu porte” (História, Livro III, cp. XX).

6. No Cântico dos Cânticos 1.5, fazem da noiva-rainha uma mulher morena, uma mulher trigueira, uma mulher escura. Mas bons dicionários da língua hebraica nos garantem afirmá-la uma mulher negra. Ela não diz: “Sou morena”, mas, “Sou negra” (heb. Sh.hora ‘ani). E não diz: “Sou negra, mas sou formosa”; Diz: “Sou negra e formosa” (heb. W.na’wah). A conjunção waw pode ter sentido adversativo, mas é, normalmente uma simples conjunção aditiva. Pode-se, portanto, com fez a LXX, traduzir: “Sou negra e formosa” – Mélaina elmi kai kalê.. Fica quase a certeza de que o senso estético preconceituoso e etnocêntrico dos tradutores ocidentais não lhes permite dizer, simplesmente, “negra e formosa”; preferem dizer “negra, porém formosa” ou «formosa, embora negra”. E nem mesmo «negra” a dizem. Como grande parte dos brasileiros, inconscientemente (?) preconceituosos, preferem chamá-la “morena”. E nada empana, nem mesmo essa noiva negra e formosa, esse amor entre a noiva e o noivo, descrito de maneira tão poética, tão livre e eloqüentemente, que faz do Cântico dos Cânticos um dos mais belos poemas de amor da literatura universal.

III

Mais do que isso, temos na Bíblia o testemunho bastante explícito sobre o lugar dos etíopes, dos negros, no propósito universal e escatológico de Deus:

1.. Sua conversão está anunciada abundantemente. Haverá o dia em que também eles trarão ao SENHOR as suas oferendas. Todas as nações distantes louvarão o SENHOR. Todos os povos abandonarão seus ídolos e adorarão e obedecerão somente ao SENHOR (Is 41.1,5; 42.4,10,12; 49.1; 18.7). Superada a alienação, a idolatria, os povos chegarão a reconhecer no projeto da Aliança o único caminho possível (Is 45.14).

Na mesma perspectiva, falam:

o salmo 68, especialmente os versos.. 29-32, onde se encontra a seguinte promessa: “E a Etiópia estenderá as mãos para Deus”;

b) o salmo 87, onde se declara que “O SENHOR escreverá uma lista dos povos, e nela todos eles serão cidadãos de Jerusalém”(v.6); e, entre esses povos, são citados, especificamente. os etíopes: “Os povos da Filistéia, de Tiro e da Etiópia eu tratarei como se eles tivessem nascido em Jerusalém” (v.4b).

3. Mais significativo ainda é Am 9,7.0 SENHOR Deus é o Senhor de toda a história humana e todos os povos são iguais diante dele. Israel não deve presumir ter mais importância para o SENHOR do que os etíopes, os negros: “Povo de Israel, eu amo o povo da Etiópia tanto quanto amo vocês”. Os filisteus e arameus foram também objetos do cuidado divino, e suas migrações foram igualmente dirigidas pela vontade soberana do mesmo Deus que tirou Israel da terra do Egito e lhe fez a dádiva da terra “que mana leite e mel”. Esse universalismo expresso no oráculo do profeta nega a qualquer povo uma relação exclusiva com Deus e afirma a igualdade de todos eles aos olhos dele. E a relação que é primeiro apresentada nessas vigorosas palavras é a do SENHOR com os etíopes. Essas palavras combatem qualquer veleidade de orgulho nacional e, para o nosso tempo e para a nossa sociedade, qualquer sentimento de orgulho racial.

4. É nessa mesma linha que se coloca a narrativa da conversão do oficial superior, tesoureiro real, da corte da rainha Candace da Etiópia. A conversão se deu por intermédio do ministério do evangelista Filipe (At 8.26-39). O texto é de grande importância, pois mostra:

a. como os helenistas, tendo evangelizado Samaria, partem para a evangelização das nações, de acordo com o programa do Senhor Jesus, em At 1.8;

b. um trabalho missionário cristão com uma estrutura reduzida e sob a orientação direta do Espírito Santo; embora, assim mesmo, esse trabalho estivesse subordinado aos apóstolos, em Jerusalém;

c. sobretudo, para os afro-descendentes, é importante porque mostra que o primeiro não-judeu introduzido, pelo poder e pela orientação do Espírito Santo, no novo povo de Deus, era um etíope, um negro.

Cumprem-se, portanto, no Evangelho de Cristo, a promessa e a esperança do AT. A partir de Is 53.7-8, que o eunuco está lendo, Filipe lhe anuncia a Boa Nova a respeito de Jesus. E ele aceita, imediatamente essa Boa Nova, Para José Combím: «O africano representa aqui um papel messiânico. Foi escolhido para representar a multidão de nações que viriam até das extremidades da terra pra formar o único povo de Deus”. Era um homem rico e proeminente. Viera do norte da África, da região hoje correspondente ao Sudão, para adorar. Era um homem que estava diligente, sincera e insistentemente. buscando alguma coisa. Inquieto, procurava alguma coisa que jamais tinha conhecido antes – e a encontrou. Era um homem negro, que se tornou as primícias das missões cristãs em todo o mundo não-judaico. Ele tornou-se o antepassado de todos os homens negros, afro-descendentes, ganhos para a fé em Jesus, nesses vinte e um séculos de história da Igreja e da missão cristã. Um símbolo de inclusão no projeto do Deus que não faz acepção de pessoas e que, se jamais manifestou alguma preferência, foi pelos oprimidos, os humilhados, os excluídos.
CONCLUSÃO

Do ponto de vista da Bíblia, não há, portanto, por que nós, afrodescendentes, carregarmos nossa negritude como se fosse um fardo, uma humilhação, idéia nefasta essa que o racismo anti-negro presente em nossa sociedade insiste em introjetar, desde nossos primeiros anos de escola, de diversas maneiras, em muitos de nós. A Bíblia reconhece um Deus que inclui no seu projeto de salvação até mesmo “os confins da terra” e os humilhados deste mundo. A Bíblia dá testemunho da beleza e da força da mulher negra e do homem negro. E esse reconhecimento e esse testemunho devem constituir um poderoso impulso para nós, negros cristãos, em nossa luta pela igualdade de oportunidade, pela nossa cidadania, pelo pleno reconhecimento de nossa humanidade!


Joaquim Beato
Faculdade de Teologia Richard Shaull
Igreja Presbiteriana Unida